
O discurso de Krishna na Bhagavad Gītā contém, desenvolvidas de forma assistemática e respeitando a psicologia e o estado de confusão e dúvida de Arjuna, a Arte e a Ciência da Contemplação, preparadas por práticas meditativas, simbolizadas na metáfora dos dois pássaros, descrita no Ṛigveda (1.164.20):
Dois pássaros com belas asas, companheiros inseparáveis, encontraram refúgio e abrigo na mesma árvore. Um deles se alimenta dos doces frutos da figueira; o outro, sem se alimentar, apenas observa...
As práticas de meditação desenvolvem-se a partir desta metáfora do "pássaro testemunha" (veja aqui um vídeo ilustrativo do vedanta). A árvore representa o nosso corpo, enquanto os dois pássaros, referem-se à nossa dupla natureza, material e espiritual: de um lado, temos a materialidade da mente emocional, racional e lógica, que constitui o nosso consciente, subconsciente e inconsciente (Jīva); de outro, a imaterialidade da consciência universal (Ātman) que anima o corpo, representada pelo coração espiritual. De um lado, inconstante, imperfeito e finito, o ser corpóreo (natureza humana) permanece em movimento, experimentando de todas as coisas. De outro lado, contudo, estático, perfeito e infinito, o Ser (nossa natureza sagrada; Espírito de Deus em nós) apenas observa e aguarda pelo reencontro – é a este processo dialógico de descoberta e unificação da alma (Jīva) com o Espírito (Ātman) que se chama contemplação, tornada possível por práticas meditativas.
Na Bhagavad Gītā, Arjuna e Krishna compartilham da mesma quadriga, simbolizando o mesmo que estes dois pássaros. Além disto, o diálogo de Krishna com Arjuna em torno do tema da meditação também representa, a um só tempo, a possibilidade de transcender e de conciliar as distintas tradições indianas fundadas na sucessão ininterrupta da transmissão do conhecimento de forma oral, de mestre a discípulo, conhecida como guru śiṣya paramparā.
Krishna, contudo, não pertenceu a nenhuma linhagem formal de gurus, nem recebeu de forma sucessória o conhecimento que transmite a Arjuna. E este, por sua vez, não se torna o detentor exclusivo do conhecimento (jñāna), uma vez que o diálogo foi tornado público pelo relato de Sañjaya. Logo, a mensagem de Krishna traz, embutida em si mesma, a quebra do paradigma da exclusividade. A Bhagavad Gītā representa a possibilidade de superação desses distintos sistemas religiosos fechados.
Em certo sentido, o ocidente se mostra mais receptivo à novidade da mensagem de Krishna que a própria Índia, que muitas vezes procura subsumi-la aos sistemas tradicionais anteriores. O que diferencia a Bhagavad Gītā das escrituras que a antecederam é justamente o rompimento com a ideia de exclusividade sacerdotal. A superação deste paradigma é personificada em Krishna, que professa uma espiritualidade universalista — precursora de um horizonte trans-vedāntico, anterior e ao mesmo tempo além da sistematização vedāntica clássica — capaz de transcender as fronteiras culturais e de casta. Daí o status de universalidade de que o texto goza no mundo ocidental.
Na Bhagavad Gītā, não é mais o sacerdote o porta-voz e intérprete do sagrado e sim um guerreiro. Do mesmo modo, o discípulo também não pertence à casta “superior” e supostamente mais preparada para receber o conhecimento espiritual. Pelo contrário, a Bhagavad Gītā rompe com a hierarquia proposta pelo sistema de castas. O diálogo sobre a essência do sagrado se dá entre Krishna e Arjuna, ambos militares, membros da realeza e representantes da classe política! Além do mais, a instrução espiritual de Krishna a Arjuna não se dá no interior de qualquer recinto sagrado, āśrama (ashram, ou espécie de monastério) ou mandir (templo), mas no campo de batalha, poucos minutos antes do início do mais terrível combate já ocorrido no subcontinente indiano. Talvez por isto mesmo, esta percepção de que a Bhagavad Gītā trate, essencialmente, da Ciência da Meditação contida no puro (śuddha) yoga, que o próprio Krishna afirma ser desconhecido dos representantes da tradição guru śiṣya paramparā, escape à maioria dos religiosos destas tradições, ocupados e preocupados que estariam em minimizar o impacto das palavras de Krishna e adaptar o diálogo da Bhagavad Gītā aos seus próprios sistemas religiosos. Não há como negar, contudo, que a Bhagavad Gītā propõe e professa a superação e a emancipação destes mesmos sistemas (BhG 18.66) fundados na autoridade exclusiva da tradição guru śiṣya paramparā, a qual os indianos mais ortodoxos encontram-se visceralmente apegados.
A essência (śuddha) do sagrado (dharma) transmitida por Krishna a Arjuna na Bhagavad Gītā expressa a espiritualidade em sua forma mais pura e não sectária. O próprio Senhor Krishna estabelece esta quebra de paradigma sem precedentes, instaurando e validando este modo novo e universalista de acessar o Ser presente no coração de cada um. De acordo com a mensagem de Krishna, qualquer pessoa, independentemente de casta, sexo, etnia, orientação religiosa, guru, etc., pode alcançar a realização espiritual a partir da Ciência da Meditação, contida no Śraddhā Yoga de que trata a Bhagavad Gītā. A pedagogia assistemática, pós-método no sentido técnico-espiritual (e não anti-rigor), empregada por Krishna na Bhagavad Gītā, foge daquela outra, metódica, empregada mais comumente dentro da tradição guru śiṣya paramparā. Krishna apenas aponta para Arjuna como tornar-se o protagonista do seu processo pedagógico. Mostra que o verdadeiro guru é o Ātman.
Como entender a pedagogia da Bhagavad Gītā que, ao mesmo tempo em que oculta, revela a Ciência da Meditação, deixando ao instrutor religioso apenas o papel de facilitador do processo de aquisição e produção de conhecimento? Primeiro, lembrando que Arjuna entra em crise porque o seu conhecimento prévio não lhe permitia lidar satisfatoriamente com aquela situação nova que estava enfrentando. Segundo, lembrando que Krishna encontra em Arjuna o discípulo maduro e disposto a ir além do que aprendera dos melhores representantes da tradição guru śiṣya paramparā. Por isto, em suma, ao apresentar, de coração, as suas dúvidas e incertezas, Arjuna obteve de Krishna os instrumentos para alcançar, por si só, a vitória sobre si mesmo. E Krishna, ao atendê-lo, cumpriu a sua missão como Avatāra, reintroduzindo no mundo a essência ancestral (śuddha) da arte (yoga) e da ciência (dharma) da meditação e validando, deste modo, a máxima de que quando o discípulo está pronto, o mestre sempre aparece em seu auxílio.
Ressonâncias Universais: O Estado de Testemunha (Sākṣī)
A experiência desse 'observador silencioso' não pertence a uma única cultura ou época; ela é a essência perene da espiritualidade. Abaixo, vemos como essa mesma verdade ecoa em vozes contemporâneas e em outras tradições místicas.
O vídeo a seguir, de Eckhart Tolle, ilustra a ideação (Bhāvana) deste estado de testemunha (Sākṣī). Sākṣī (sa, “com”; e akṣa, “olho” ou “eixo”) significa aquele que observa impassivelmente. Na exata medida em que nos aproximamos desse eixo imutável da roda de Saṃsara, descobrimos nossa própria natureza espiritual.
Da mesma forma, mas partindo de uma vivência distinta, o registro abaixo apresenta uma definição sintética de meditação fundada neste mesmo princípio do observador isento.
Por fim, essa herança não-sectária floresce também na mística cristã. A 'Oração do Amanhecer', atribuída a São Francisco de Assis, guarda a mesma essência da Bhagavad Gītā: a meditação (Dhyāna) fundada na reta conduta (Karma), que nos alinha ao eixo de escuta amorosa de Ṛta — a Ordem Cósmica — e, consequentemente, ao estado de unidade de todas as coisas (Bhāvana): Senhor,
No silêncio deste dia que amanhece,
Venho pedir-Te a paz, a sabedoria, a força.
Quero ver hoje o mundo com os olhos cheios de amor.
Quero ser paciente, compreensivo, manso e prudente.
Quero ver além das aparências os teus filhos,
Como tu mesmo os vês e assim não ver senão o bem em cada um.
Cerra meus ouvidos a toda calúnia.
Guarda minha língua de toda a maldade.
Que só de bençãos se encha o meu coração.
Que todos os que de mim se acercarem sintam a Tua presença.
Reveste-me de Tua beleza, Senhor.
E que no decurso deste dia eu Te revele a todos.
Esta oração franciscana expressa o ideal de manter o foco e o estado de meditação, ou de conexão com o coração, o dia todo e representa, portanto, uma verdadeira eulogia à atenção plena aos chamados do cotidiano para a intensificação e aprofundamento da prática ininterrupta de meditação, cuja marca característica (lākṣaṇa) é śraddhā (o compassivo sentimento sintrópico, que define a Cultura Sintrópica e a sua práxis e se traduz como o princípio da confiança e da prudência, a bússola interior e a amorosa energia que ilumina a razão em seu processo de convergência para a Verdade e o Absoluto), o sentimento que orienta o processo de convergência sintrópica (Brahma Sāmīpya). Tal rendição em Espírito de amor universal denomina-se, tecnicamente, Bhāvana Namaḥ -- a rendição (Namaḥ) ao sentimento de amor e compaixão, decorrente da percepção da unidade do mundo e de todas as coisas (Bhāvana).
Rio de Janeiro, 07.09.17.
(Atualizado em 10.02.26)