2025-02-24

A Respiração Sagrada: Meditação e a Trimūrti no Śraddhā Yoga

A regência e a energia do cosmos: a ordem criativa da Trimūrti e a manifestação dinâmica da Tridevī. 
Na ontologia védica, a manifestação reflete o poder de Śakti e o jogo da guṇamāyā no cosmos.
No Śraddhā Yoga, tal como exposto na Bhagavad Gītā, somos convidados a nos consagrar (tyāga) de coração, transformando cada ação, por mais ínfima que seja, em uma oportunidade para a disciplina interior (tapas), o sacrifício (yajña) e a doação (dāna) de si mesmo. A Bhagavad Gītā nos ensina que não há situação na vida em que não possamos cultivar e desenvolver o estado meditativo. Essa prática, em sua essência, é o que se entende por Meditação. O segredo dessa arte está oculto no simbolismo da respiração e na sua intrínseca relação com a práxis cotidiana. Inspirar (pūraka), reter (kumbhaka) e exalar (rechaka) o sagrado são atos que transcendem o físico, conectando-nos ao ciclo cósmico de nascimento, vida e morte, conforme representado pela Trimūrti da tradição védica.

A Trimūrti, composta por Brahmā, Viṣṇu e Śiva, simboliza as três manifestações da Suprema Consciência Sintrópica: criação, preservação e desintegração. Essas funções cósmicas refletem-se em nossa própria existência, onde cada respiração se torna um microcosmo do eterno ciclo da vida. Aprender a nascer para a consciência sintrópica, viver com ela e morrer nela é a essência do śuddha prāṇāyāma, uma disciplina que nos orienta em direção à Verdade e ao Absoluto (Brahma-sāmīpya).

É importante destacar a distinção entre “Brahmā”, a divindade criadora, e “Brahman”, o Absoluto não-personificado das Upaniṣads. Enquanto Brahmā é uma das faces da Trimūrti, Brahman representa a realidade última, impessoal e infinita. Para evitar confusões, referimo-nos a “Brahma” como Brahman (ou seja, pela forma não-declinada do termo). Essa diferenciação é crucial para compreender as funcionalidades específicas da Trimūrti em contraste com a natureza transcendente de Brahman.

A prática do Śraddhā Yoga envolve a renúncia (saṃnyāsa) ao ser individual (vir-a-ser) em favor do Ser universal. Essa entrega (tyāga) se manifesta em cada respiração, onde nascer (inspirar) e morrer (expirar) se tornam atos sagrados. Cada ciclo respiratório, quando realizado com consciência plena, revela-se como uma expressão do sagrado e um passo em direção ao equilíbrio sintrópico. O śuddha prāṇāyāma, ao refletir a luz da Suprema Consciência Sintrópica, transforma a mente em um lago tranquilo, de onde emergem intuições superiores. Ao regular a respiração a partir do coração, criamos um campo fértil para o cultivo de sentimentos elevados, sem perturbar o fluxo natural da kuṇḍalinī, a energia vital que, sob a forma de śraddhā, nos conduz à realização do ser e à aproximação sintrópica e assimptótica à Verdade e ao Absoluto (Brahma-sāmīpya).

O Śraddhā Yoga encontra sua expressão máxima no Dhyāna Mantra "Haṃsa", explorado no Haṃsa Prāṇāyāma. Esse mantra, discutido no artigo O que é Sākṣī?, está profundamente ligado ao conceito de Sākṣī (pronuncia-se "sá-kshí"), o “observador” ou “testemunha”. Assim como o centro de uma roda (akṣa) permanece imóvel enquanto a roda gira, o Sākṣī observa impassivelmente os eventos do mundo. O Haṃsa, simbolizado pelo cisne, representa a união mística entre o “eu” individual (haṃ) e o Espírito universal (saḥ). Essa dualidade também se manifesta no Prāṇāyāma, onde o som produzido pela inspiração (pūraka) e expiração (rechaka) ecoa o mantra "haṃ-sa". O cisne Haṃsa personifica o som primordial (nāda), presente em cada respiração, enraizado no coração, onde Ātman atua tanto em estado de separação (vi-yoga), como Jīva, quanto em união (saṃ-yoga), como Jīvātman.

O Dhyāna Mantra transforma toda ação em meditação, permitindo-nos manter a mente sob a luz do coração e reconhecer o sagrado em cada momento da vida. O termo “Haṃsa” significa “cisne” e simboliza o Espírito (Ātman). Literalmente, “Haṃ-sa” traduz-se como “Eu sou (‘haṃ) Aquilo (sa)”, uma afirmação da identidade entre o ser individual e o Espírito universal. A palavra “Mantra” deriva da raiz verbal “man” (pensar), sugerindo um instrumento para o reto pensar, alinhado com a realidade espiritual. O Dhyāna Mantra Haṃsa, silencioso e oculto no ponto de encontro entre Iḍā e Piṅgala no Ājñā Chakra, é o assento da energia sintrópica (Brahma Śakti). Nele, a respiração ressoa como um canto sagrado: “Haṃ-sa, haṃ-sa” – inspiro paz e harmonia (Brahma Śakti), expiro amor (Śraddhā). Esse mantra guarda o segredo da Brahma Śakti, manifestando-se no alento vital como paz e amor.

Quando a respiração se torna uma meditação, ela se transforma em um japa, uma repetição sagrada que transcende a necessidade de outras disciplinas espirituais. O śuddha prāṇāyāma, ao unir respiração e consciência, torna-se a meditação por excelência, conduzindo-nos à realização do ser e à harmonização progressiva com a Verdade e o Absoluto.


Rio de Janeiro, 24.02.25.
(Atualizado em 25.02.25)

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