terça-feira, 18 de abril de 2017

Sorriso Interior: A arte de Amar (I)

Jesus Cristo e Krishna
O que é o amor de que falam as religiões? Como definir, como buscar e experimentar daquilo que não se sabe, ao certo, o que é? Esta é a questão central da filosofia do coração, inaugurada no oriente com o discurso de Krishna na Bhagavad Gītā e que passaria a ser praticada, séculos mais tarde, por Jesus de Nazaré, cujo exemplo logo alcança todo o ocidente. Dito de modo simples, o amor é o sentimento transcendente, universal e subjetivo da realidade absoluta, experimentado de forma imanente, parcial e objetiva por meio da faculdade da vontade, sede das emoções; e jamais por meio da razão lógica, que não o alcança, nem o compreende, visto que não se expressa como um pensamento, mas antes como aquilo que lhe antecede e lhe dá origem. Simbolizado na famosa expressão sânscrita OM (AUM), o amor representa, segundo a epistemologia da Bhagavad Gītā, a semente original de todas as existências e a causa do próprio surgimento do universo, que teria se dado segundo a fórmula: “Ekoham, bahusyam prajayeyeti” – Eu sou Um, tornar-me-ei também múltiplos seres.  Do Espírito Absoluto (Ātman, ou Paramātman), emana a energia de amor puro (Śakti) que, ao se condensar, dá origem à matéria (Prakṛti). A gramática e a sintaxe do sânscrito procuram nos lembrar de que tudo se origina do Transcendente Logos (OM), o Verbo Divino, que dá forma ao universo segundo os seus três aspectos: A-U-M, espírito, matéria e energia. Assim o universo surgiria como expressão do amor cósmico, que representa a lei de funcionamento da vontade criadora no cosmos.  

Não foram poucos os pensadores ocidentais que reconheceram a quase impossibilidade de se lidar racionalmente com a arte de amar. Blaise Pascal (1623 - 1662), o famoso matemático e filósofo francês, por exemplo, afirma que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. E que “nós conhecemos a verdade não apenas pela razão, mas pelo coração”. Mais recentemente, Erich Fromm (1900 – 1980), psicanalista e filósofo alemão, afirma em A Arte de Amar (The Art of Loving, 1956) que o amor deve ser compreendido como uma arte que é aprendida como o são todas as artes, desde a música até a engenharia. Como em todos os processos de aprendizagem, teria que haver o domínio da teoria e da prática.  Quais seriam os fundamentos da teoria e da práxis desta ciência do coração, objeto de espanto e admiração de tantos religiosos, místicos, pensadores e filósofos? É desta matéria que procuro tratar neste texto, a partir de minha experiência pessoal com a Mística, a Filosofia e as literaturas sagradas do oriente e do ocidente.

Enquanto a filosofia em geral tende a considerar que o homem, por ser dotado de razão, tem consciência de si mesmo como uma entidade separada do todo, a filosofia do coração, que perpassa a literatura sagrada mundial, vale-se do sentimento de amor como a bússola da consciência de si para definir a si mesma como uma imagem luminosa do Espírito Universal, refletida no corpo, e que a todos irmana e ampara durante o processo de auto-descoberta no decorrer da vida. Se a luz desta consciência espiritual ainda não brilha como deveria é porque nos deixamos dominar por desejos egoístas e paixões inferiores que impedem a manifestação e a irradiação da luz de amor, natural do Espírito Universal. Daí as distintas tradições religiosas proporem a regulação dos desejos e das paixões para que a luz do amor possa brilhar iluminando as nossas vidas. A questão que se coloca, portanto, é: como superar o aparente estado de separação da consciência de si, para nos darmos conta da imanência e transcendência do sentimento de amor que a anima e conecta sutilmente com o todo? Conforme mencionei em outro artigo deste Livro-Blog, fora esta mesma questão que procurara, sem muito sucesso, responder e roteirizar – a partir dos registros do Diário, que mantenho desde muito jovem – em minha única experiência com uma obra ficcional. 

Pitágoras (c. 570 – c. 495 A.C.)
Só nos tornamos mestres em qualquer arte depois de muita prática. Iniciara em 1990 a primeira versão de Síndrome do Pânico: Aprendendo com a pedagogia da dor (Ed. Litteris: 1998). O titulo original, depois modificado pela editora, Sorriso Interior: uma viagem ao passado em busca da disciplina do amor, já identificava o meu objetivo de equacionar a arte de amar. O título, “Sorriso Interior”, era uma homenagem ao poema de mesmo nome do poeta simbolista brasileiro Cruz e Sousa. E a menção no subtítulo à disciplina do amor se devia ao fato de ter sonhado com ela. No sonho, vira como os estados de medo e pânico dominavam as pessoas fragilizadas pela ausência do sentimento de amor, em especial. Esses estados não acometiam, contudo, os verdadeiros sábios, os filósofos do coração, sempre envoltos numa aura protetora de amor, bondade, justiça e compaixão. Não acometeram, por exemplo, Sócrates, nem mesmo quando este enfrentara a sua sentença de morte. Também não acometeram Pitágoras, o provável introdutor da teoria da reminiscência entre os gregos e que me aparecera no sonho explicando-me porque nenhum mal da mente atinge àqueles que cultivam a proteção dos deuses, dotados de sabedoria e perfeição inacessíveis aos humanos. Os homens iriam, progressivamente, se aproximando dos deuses, na exata medida em que fossem se tornando filósofos, isto é, sábios e amantes, verdadeiramente, da sabedoria divina. De início, o homem só aprende e percebe o que é melhor para si mesmo após sofrer as consequências das más escolhas. Logo, contudo, percebe que pode tirar proveito do exemplo daquilo que sucede aos demais. Por fim, se dá conta que o mais valioso é deixar a luz do amor brilhar iluminando assim a sua consciência para poder prever, por si próprio, qual o melhor e mais conveniente caminho a se seguir.

No livro, procurara refletir dramaticamente sobre os obstáculos que nos impediam de acessar e seguir este curso superior da arte de amar identificado por Pitágoras. Necessitava compreender e arrancar, definitivamente, as raízes do egoísmo e do mal. Mas, que ciência seria esta que não dominava? Por que gravávamos tão facilmente as ofensas, mas tínhamos dificuldades para aurir forças, cultivar e guardar o que nos fazia bem?  Por que a memória gravava mais facilmente o mal que os outros nos faziam? Que força incontrolável seria aquela que, por vezes, nos fazia estranhos a nós mesmos, levando-nos a perguntar, “como fui capaz de fazer isto?”. “Aquele não era eu”, dizemos. Mas era. Um eu dividido, que não aprendera ainda a julgar corretamente os seus desejos. Um eu esquecido de que somos seres eco sociais e formamos um só corpo.  A mente era uma caixa preta. Como poderia descobrir o seu funcionamento, senão pedindo o auxílio das musas, filhas de Zeus com a Memória? Somente as musas podiam validar as verdades dos processos catárticos que nos despertam para a arte de amar. O drama catártico e a exploração do mundo dos sonhos era um modo de inferir o conteúdo daquela caixa preta, de onde surge a consciência de si mesmo, e decifrar os códigos de minha herança genética e ancestral conexão com o todo.

Há uma passagem no livro em que menciono um sonho com uma divindade que me mostrara que eu fora no passado um iniciado na arte e nos mistérios do tantra e que isto ainda me impedia de avançar na verdadeira arte de amar. Fora um sonho rico em cores, imagens e emoções. Aquela misteriosa divindade tinha o especial poder de desvelar o meu passado e fazer aflorar em minha consciência todas as fraquezas ocultas que ainda guardava sem me dar conta. Bastava-lhe me dirigir uma simples pergunta para que todo um processo catártico se iniciasse. Disse-me que, antes mesmo de manifestar-se para mim no sonho, fora ela que havia me induzido a expor o meu caráter e modo de ser na cena imediatamente anterior à sua aparição no sonho, onde me via conversando com um velho colega dos tempos do colégio. Nesta cena, tínhamos o especial poder de encontrar na memória quaisquer eventos já vividos. Recordá-los era revivê-los com a mesma intensidade emocional da experiência real. E isto nos permitia também aprimorar a nossa amizade e o entendimento da arte de amar, pois víamos com nitidez cristalina, naquele estado de consciência em que nos encontrávamos, que as desavenças tornavam-se, com o tempo, pequenas e sem importância. Após esta cena, a deusa surgira pessoalmente. Queria me mostrar que, embora eu não nutrisse mais sentimentos inferiores, havia despertado em muitas pessoas muitos desses mesmos sentimentos. Vieram-me à lembrança cenas de um passado distante, que foram me revelando quem eu era, com todas as minhas qualidades e defeitos. Aquela figura feminina parecia ter consciência dos meus mais íntimos pensamentos. Perguntou-me, uma vez mais sobre o meu caráter. Mostrei-lhe as palmas das mãos, em sinal de franqueza e honestidade, mas ela deixou claro que haviam ainda máculas em meu caráter que deveriam ser sanados. Teria que me dedicar, muito mais intensamente que me parecia possível, à minha própria disciplina pessoal, se quisesse ser iniciado na verdadeira arte de amar. Fez-me ver as misérias que ainda se encontravam escondidas nas antecâmaras do meu próprio coração e que me impediam de atravessar o portal iniciático guardado por ela. Acordei assustado comigo mesmo e com quem eu era e não sabia. Encontrara, contudo, a resposta que buscava. Cada sonho era uma obra de arte e deveria ser apreciado como o são os quadros expostos nas paredes dos melhores museus. Compreendera, finalmente, que os sonhos revelavam o modo de aprender a aprender com os deuses. Revelavam, em suma, conforme ensinavam Pitágoras, D. BoscoBhagavan Das e tantos outros, os segredos guardados pelos deuses sobre a arte de aprender a amar.

Próximo texto: Sorriso Interior: A arte de Amar (II)
Texto inicial: O Caminho do Coração: Livro-Blog no ar sob a égide de Śraddhā

Rio de Janeiro, 18 de abril de 2017.
(Atualizado em 16.04.18)