Viemos, Cássia e eu, testemunhar o VIII Seminário Internacional e IX Assembleia Geral do Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB) e o Primeiro Encontro de Reitores Brasil–Itália, na Università di Parma, de 24 a 28 de outubro de 2016. O GCUB, constituído em 27 de novembro de 2008 na Universidade de Coimbra, reúne hoje dezenas de instituições brasileiras, federais, estaduais e comunitárias, criando uma arena rara: aquela em que a universidade pensa a si mesma — não apenas seus indicadores, mas sua direção.
O encontro contou com a participação de 54 reitores. No dia 25, o reitor Loris Borghi (Università di Parma) fez o discurso de abertura (veja aqui). Entre as autoridades presentes, estiveram a Ministra da Educação da Itália, Stefania Giannini, e o Embaixador do Brasil em Roma, Ricardo Neiva Tavares. Esse registro factual não é mero protocolo: ele lembra que a universidade, quando pensa o próprio destino, toca inevitavelmente a política — e que as escolhas institucionais, mesmo quando se apresentam como “técnicas”, são sempre escolhas de valores.
O tema central do evento — UNIVERSIDADES PARA UM MUNDO SEM FRONTEIRA — já indicava o alvo: buscar novos paradigmas para a universidade neste início de milênio. Mas a experiência de estar na Itália, onde o termo “universidade” foi cunhado e onde as primeiras universidades europeias tomaram forma, dá ao tema uma espessura especial. A universidade, como a conhecemos, é uma criação histórica situada; e justamente por ser situada, ela pode envelhecer, enrijecer, perder o eixo e, sem perceber, confundir expansão com sentido.
Estar na Itália — onde o vocabulário latino que moldou a ideia moderna de universitas se consolidou e onde as primeiras universidades europeias ganharam forma — tornou Parma um lugar particularmente adequado para este encontro. Vale também registrar a participação da ANDIFES, que representa as instituições federais de ensino superior na interlocução com o governo e com a sociedade. O que se viu ali foi um interesse real das universidades brasileiras em pensar seus rumos neste início de milênio — não apenas em termos de gestão, mas de direção.
É aqui que entra a pergunta que realmente importa: o que significa “sem fronteiras”? Não basta abolir fronteiras geográficas, assinar acordos e multiplicar mobilidades acadêmicas. Um mundo sem fronteiras pode significar também um mundo sem centro — um mundo de circulação acelerada, mas sem direção; um mundo com muito contato, mas pouca coerência. E o risco maior, para a universidade, é adaptar-se a isso com eficiência perfeita: tornar-se excelente em administrar fluxos e produzir resultados, enquanto perde a capacidade de sustentar o real.
Quando digo “repensar a universidade com o coração”, não falo de sentimentalismo, nem de “humanismo genérico” como enfeite de discurso. Falo de um critério. A imagem que me acompanha — e que me ajuda a nomear o que está em jogo — é esta: razão iluminada pelo ardor do coração. Em uma palavra que me é cara (e que prefiro não traduzir como “fé”), śraddhā.
Śraddhā aqui não é crença adicionada; é força de alinhamento. É o que impede a inteligência de virar astúcia. É o que impede a crítica de virar cinismo. É o que faz a pesquisa reconhecer seus limites sem abandonar seu rigor. É o que faz a educação deixar de ser somente transmissão de competência e tornar-se formação de presença e responsabilidade.
Se a universidade nasceu como comunidade de mestres e estudantes, ela permanece viva apenas enquanto for capaz de manter esse coração estrutural: uma comunidade que procura verdade, mas que não reduz verdade a utilidade; que produz conhecimento, mas que não confunde conhecimento com poder; que forma pessoas, mas que não as trata como unidades de performance.
O tema “mundo sem fronteiras” me parece pedir exatamente isso: não apenas mais conectividade, mas mais coerência. Não apenas internacionalização, mas integração (entre saber e vida, entre pesquisa e responsabilidade, entre técnica e sentido). Não apenas produtividade, mas critério. A universidade do futuro não será salva por um novo slogan, nem por uma nova arquitetura administrativa. Ela será salva — se for — pela recuperação de um eixo interno que a torne capaz de atravessar transformações sem perder sua função essencial.
Por isso, ao lado de toda a discussão sobre políticas acadêmicas, redes de cooperação, financiamento, mobilidade e inovação, eu guardo como síntese uma pergunta simples: o que, em nossas universidades, permanece irredutível ao mercado, ao Estado e à vaidade institucional? O que permanece fiel ao real?
Chamar isso de “coração” é uma forma de lembrar o óbvio esquecido: a universidade não existe para multiplicar textos, títulos ou rankings; ela existe para sustentar uma forma de vida intelectual que não traia a vida. Se a universidade perder esse coração, ela pode continuar funcionando por décadas — e, ainda assim, já terá falhado.
E talvez seja esse o ponto mais silencioso, mas mais decisivo, que um encontro como o de Parma torna visível: o futuro da universidade não depende apenas de novas fronteiras abertas; depende de um centro recuperado. E esse centro — se eu tiver de nomeá-lo — é a inteligência quando aceita ser iluminada pelo ardor do coração: śraddhā.
Apêndice — Notas históricas
1) A universidade como instituição histórica europeia
A universidade, enquanto forma institucional dominante do ensino superior moderno, é frequentemente reconhecida como uma criação europeia, desenvolvida no contexto medieval e fortemente ligada à história da Igreja e das cidades europeias. Gradualmente, tornou-se um modelo exportado e universalizado, substituindo ou absorvendo outras formas de ensino superior.
2) Antecedentes e instituições “análogas”
Diversas culturas desenvolveram, ao longo dos séculos, centros avançados de formação e pesquisa que hoje podem ser descritos como “instituições de ensino superior”, embora nem sempre se encaixem, em sentido estrito, no modelo medieval europeu. Entre os exemplos frequentemente citados:
- Academia de Platão (c. 387 a.C.), por vezes associada, retrospectivamente, a uma tradição que culmina em instituições posteriores de ensino em Atenas.
- Pandidactério de Constantinopla (fundado em 425 d.C.), em alguns relatos tratado como uma forma imperial de ensino superior.
- Centros do mundo indiano antigo, frequentemente mencionados em discussões sobre história global do ensino: Nālandā (c. 427 d.C.), Puṣpagiri (estabelecida por volta do século III), Takṣaśilā (por vezes datada a partir do século V a.C.), Vikramaśīlā (c. 800–1040).
A ressalva importante é que muitas dessas instituições, apesar de sua grandeza, operavam com estruturas, finalidades e regimes de autonomia distintos do que passou a caracterizar a universidade europeia medieval.
3) Etimologia e definição clássica
O termo “universidade” deriva do latim universitas magistrorum et scholarium, frequentemente traduzido como “comunidade de mestres e estudantes”. A noção enfatiza uma associação relativamente autônoma de scholars, com regras, graus e um corpo institucional.
4) Datas clássicas do modelo europeu
Costuma-se citar:
- Universidade de Bolonha (1088) como uma das mais antigas universidades europeias associadas ao nascimento do modelo.
- Universidade de Oxford (tradicionalmente datada a partir de 1096) como uma das mais antigas do mundo de língua inglesa.
- Università di Parma: por vezes associada a uma origem antiga (com referências a 962), mas com consolidação universitária efetiva em período posterior (frequentemente 1502, conforme tradições institucionais).
5) Por que isso importa para o texto
Essas notas históricas não são um fim em si. Elas servem para lembrar que:
- “Universidade” não é um conceito neutro; é uma forma histórica.
- Justamente por ser histórica, ela pode ser repensada.
- “Mundo sem fronteiras” exige mais do que expansão: exige eixo, critério e responsabilidade.
SUMÁRIO GERAL
Rio de Janeiro, dois de novembro de 2017.
(Atualizado em 27.02.26)
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