A Bhagavad Gītā no Mahābhārata: Sanjaya narra para o rei cego Dhritarashtra a revelação do Śraddhā Yoga |
As quarenta proposições a seguir ilustram como o Śraddhā Yoga, revelado na Bhagavad Gītā, nos conduz, por meio da arte e da ciência da meditação, do saṃsāra ao nirvāṇa.
01. Cada novo dia é uma oportunidade de iniciação na heroica jornada do saṃsāra ao nirvāṇa. Para que esta iniciação ocorra e/ou se atualize, temos que tomar a resolução firme de não cair ante o desânimo e todas as demais dificuldades que forem se apresentando como provas, ou obstáculos, ao desabrochar de nossa śraddhā. Colocado em termos da filosofia grega, este desabrochar guarda semelhanças com o processo descrito na Alegoria da Caverna de Platão.
02. Para vermos com clareza as direções a tomar à medida em que desbravamos os mares e as florestas e selvas mais internas do ser, devemos nos preparar para lançar luz e iluminar o nosso próprio caminho.
03. Temos que nascer na noite de cada novo dia, com a disposição para compreender que cada movimento que fazemos representa uma forma de expressão da poderosa onipresença do sagrado.
04. Todo conhecimento deve ser praticado para revelar o sagrado processo sintrópico que regula amorosamente a vida toda do universo.
05. Quando compreendemos que todo o caminho pré-estabelecido é um descaminho e que todos os descaminhos não deixam de ser caminhos, nos aproximamos do momento em que o amor espiritual nasce em nossos corações, iluminando as nossas mentes.
06. Desse momento em diante, o que fora outrora a nossa loucura torna-se luz, a serviço de todos e de todas, tal como descreve a famosa Oração do Amanhecer, atribuída a São Francisco de Assis.
07. Como identificar e, verdadeiramente, entrar em sintonia com a silenciosa voz do espírito em nosso coração? Como identificar este poder revolucionário do ser, que nos liberta da prisão de saṃsāra e nos revela a realidade do nirvāṇa?
09. A Bhagavad Gītā descreve, integralmente, a jornada do saṃsāra ao nirvāṇa, conforme testemunhado por inúmeros espiritualistas e ascetas. Assim como as noites escuras revelam o brilho e a luz que vêm da lua e das estrelas, assim também, mesmo sob uma mente conturbada e turva, sempre existem pontinhos de luz, que podem ser cultivados e amplificados, por meio de uma vontade firme e de uma disciplina apropriada.
10. O altruísmo protege a mente e possibilita que a meditação dê frutos, assim como as árvores no outono. Num primeiro momento, desenvolve-se a vontade de aprimoramento. É como se a árvore estivesse se renovando e florescendo. Num segundo momento, essa vontade forte produz frutos e as quedas não se repetem. Assim é a cura que se processa pelo coração: uma nova via vai se formando e a velha, aos poucos, se apagando.
11. Logo ganhamos serenidade para aceitar o que não podemos mudar, coragem para mudar o que for possível e "bom-senso" (com hífen) para saber diferenciar entre um e outro caso. Assim diz a oração de Reinhold Niebuhr, adotada pelo AA. Este bom-senso (com hífen), representa, diferentemente do bom senso (sem hífen), a base fundamental onde se assentam todas as expressões verdadeiras, justas e belas. Ao superar o que se entendia por bom senso, Descartes preparou o terreno para estabelecer o "bom-senso" como fundamento da consciência e do conhecimento.
Eu penso, portanto eu sou. (Discurso do Método, 1637) |
13. A partir desse momento, tendo despertado para os valores o coração, seremos movidos pelo "bom-senso", a bússola que nos torna instrumentos do sagrado. Conforme ensina Teófano, o Recluso, em A Arte da Prece, "quando a consciência está dentro do coração, ali também está o Senhor; e assim os dois tornam-se um.
14. Este "bom-senso" nos faz perder o interesse nos atrativos do mundo e convergir para a pura morada do Ser, que nos revela a nós mesmos. E assim vamos nos tornando a cura, não apenas para nós mesmos, mas para todos aqueles ao nosso alcance.
15. Está ao alcance de todos nós criar as condições necessárias à realização espiritual. Assim desenvolvemos a compreensão de que cada ser humano que atravessa o nosso caminho representa, potencialmente, um guru. Esta humildade, que nos torna aprendizes da vida, por meio de todas as experiências que ela nos oferece, é uma das marcas características dos verdadeiros gurus, que já alcançaram a condição de mestres de si mesmos.
16. SEGUNDA SÍNTESE: A Bhagavad Gītā desenvolve a arte e a ciência da meditação sob a forma de um diálogo, que tem como espinha dorsal o conceito de śraddhā – o compassivo sentimento sintrópico, que define a Cultura Sintrópica e a sua práxis e se traduz como o princípio da confiança e da prudência, a bússola interior que acompanha o movimento da compaixão, do amor e da verdade, iluminando a razão em seu processo de convergência para a Verdade e o Absoluto (Brahma-sāmīpya). Śraddhā é a bússola que nos indica o caminho da realização espiritual.
17. A jornada do saṃsāra ao nirvāṇa exige o desenvolvimento do poder de renúncia e entrega à vontade suprema. Sócrates, de forma heroica, ante a sua morte, referiu-se à cicuta, não como o veneno que lhe tiraria a vida, mas como o medicamento que lhe traria a libertação de sua alma. Jesus, igualmente, poderia ter evitado a cruz, mas não o fez. O próprio Buda, segundo alguns acreditam, próximo já de sua morte, ante o desespero dos seus discípulos, em especial, de Ananda, teria dito: "O que mais a comunidade pode esperar de mim? Já ensinei a vocês tudo o que sei. Chegou o tempo de vocês se tornarem ilhas de refúgio para si mesmos, sem dependerem de mim. A Verdade deve ser o refúgio, e nada além disso."
18. Todos nós vivemos, em maior ou menor medida, submetidos à intoxicação cultural e mediática do mundo de saṃsāra, que nos impede vislumbrar o universo de nirvāṇa. Daí a necessidade de sermos constantes em nossa vigília e disciplina em relação aos estímulos que nos chegam pelos sentidos.
19. A vigília nos dá foco e aumenta o nosso poder de enfrentar os desafios que a vida nos apresenta. Por isto, no Mahābhārata, no momento que antecede o início da Bhagavad Gītā, Krishna pede a Arjuna que entoe o Hino a Durgā.
20. Toda vez que quebramos nossos propósitos, enfraquecemos o nosso poder de concentração e meditação, pois permitimos que a mente se desvie do coração e fique oscilando, sem controle, ao sabor dos desejos. A grande maioria de nós ainda não conseguiu vencer essa batalha, que significa sempre dar precedência aos nossos anseios altruístas (Śreyas).
21. Para alcançar a maestria sobre as ações, necessitamos exercitar a arte de amar, que nos dá a compreensão de que o interior e o exterior são os dois lados de uma mesma moeda. Quando a mente se aquieta no coração, ocorre esta unificação, a transcendência sobre a realidade dual de saṃsāra.
22. As verdades intuitivas (pratyakṣa) surgem na mente (citta) quando controlamos e harmonizamos (nirodha) a sua atividade (vṛtti) por meio da prática de meditação. O iogue, de mente disciplinada, age no mundo harmonizando as posições contrárias (tese ou sañkalpa e antítese ou vikalpa) e estabelecendo novas sínteses (anukalpa).
23. Daí decorre a práxis da filosofia do coração, elaborada por Krishna ao longo do Mahābhārata e equacionada na Bhagavad Gītā como uma fenomenologia da consciência amorosa.
24. TERCEIRA SÍNTESE: Quando nos identificamos com o fogo ardente do coração, experimentamos a vida toda como uma expressão do sagrado. Tudo isto que fez o Cristo e ainda mais, segundo as suas próprias palavras, podemos também realizar, se a nossa mente aprender a residir e se estabelecer, sem oscilar, no coração, onde habita o Espírito.
25. Não é possível avançar pela via do saṃsāra ao nirvāṇa e desenvolver os estados de meditação e paz enquanto o coração estiver intoxicado com sentimentos negativos. Denomina-se como "bhāvana" (adjetivo/substantivo) e "bhāvanā" (substantivo feminino) o convite para que "cultivemos" pensamentos e sentimentos que purifiquem os nossos corações.
26. É o estado de paz, oriundo das práticas de bhāvana, que indica o nosso progresso durante o processo de harmonização dos contrários que habitam em nós.
Representação da Gītopadeśa |
28. O estado de nirvāṇa dissolve a percepção do mundo que considerávamos real e concreto (saṃsāra) e promove a síntese (yoga), entre a nossa práxis externa (karma) e interna (dhyāna).
29. Quando se alcança este yoga (síntese), percebe-se a função sagrada daquilo que antes víamos como "o mal" em nossas vidas. Alcança-se, deste modo, o entendimento da cadeia causal e sintrópica que envolve todos os pares de opostos, que colocam à prova as nossas virtudes.
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Aprendendo com Francisco Barreto em dezembro de 2006: "Primeiro ser; depois fazer; e só então, dizer..." |
30. Quem nunca se sentiu, em algum momento da vida, extremamente só e com vontade de desistir? Até que alcancemos o estado de Perfeita Alegria ficamos todos sujeitos às contradições do universo dual. Contudo, nenhum filho de Deus fica esquecido e sem o auxílio espiritual para transcender o sofrimento e alcançar a participação na vida divina. Diz o grande sábio budista Śāntideva, “para a mente debilitada, até mesmo uma dificuldade insignificante representa um opressor tirânico.” (Bodhicaryavatara, 7:52).
31. Para alcançar o nirvāṇa, devemos cultivar śraddhā, a bússola interior que nos orienta ao nirvāṇa. O que é śraddhā senão a capacidade de empreender, conforme a luz do coração, o que é mais meritório? O que é śraddhā senão a própria força de vontade para fazer de cada minúscula ação um ato de amor puro e universal?
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Quadro simbólico da sagrada síntese da cultura universal de paz e amor. |
32. QUARTA SÍNTESE: Tudo o que alcançaram os grandes seres e ainda mais, podemos também alcançar, se aprendermos a trilhar para o nosso interior e ali realizar a sagrada síntese do amor puro e impessoal, a única capaz de harmonizar todos os contrários.
33. A jornada do saṃsāra ao nirvāṇa desenvolve-se em consonância com a arte e a ciência de fazer de cada minúscula ação uma meditação sintrópica. Quando a mente fica serena como a superfície cristalina de um lago, ela reflete a nossa imagem real, bem como revela e deixa transparente tudo aquilo que jazia oculto e inacessível em suas profundezas – esta a função real e o objetivo principal das práticas de meditação.
34. A busca da perfeição na ação disciplina a mente e melhora a qualidade da meditação. Uma mente distraída e indisciplinada é como a superfície de um lago revolto pelo vento – não reflete com clareza nenhuma imagem, nem torna transparente o que reside nas profundezas. A marca característica (lakṣaṇa) dos praticantes de meditação é a capacidade que desenvolvem de agir de forma amorosa e altruísta, em conformidade com a consciência da verdade e da justiça, expressões da lei sintrópica universal (Ṛta).
35. O Sutra do Coração (Hṛdaya Sūtra) do cânone budista, utilizado durante o caminho que leva à Perfeição da Sabedoria (Prajñā Pāramitā), termina com o seguinte mantra, utilizado para concentrar, purificar e pacificar a mente: Gate gate; Pāragate; Pārasaṁgate; Bodhi svāhā (veja aqui com Deva Premal): "Adiante e além; todos, adiante e além; rumo à outra margem; da maravilhosa iluminação!" A verdade sobre a realidade do ser e do mundo fenomênico só pode ser plenamente compreendida nesta outra margem, onde se encontra a sabedoria intuitiva (prajñā), acessível pela meditação.
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“Há dois pássaros, dois bons amigos, que habitam a mesma árvore do Ser. Um se alimenta dos frutos desta árvore; o outro apenas observa em silêncio.” (Ṛigveda 1.164.20 e Muṇḍaka Upaniṣad 3.3.1) |
37. Assim como o raio de luz, quando concentrado, transforma-se em poderoso laser; assim também a mente unificada ao coração não se deixa distrair na experiência das coisas transitórias do mundo e logo alcança o nirvāṇa. Na Bhagavad Gītā, Arjuna e Krishna compartilham da mesma quadriga, simbolizando estes dois pássaros, que representam, respectivamente, a mente e o coração.
38. A Bhagavad Gītā afirma que educar a mente para a prática da meditação significa guiar-se no mundo pela bússola do coração. A mente que permanece nos sentidos, não se acalma, nem se beneficia da luz que se irradia do coração, sede do Espírito Santo.
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Śrī Kṛṣṇa Dvaipāyana Veda Vyāsa, compilador do Mahābhārata e da Bhagavad Gītā. |
39. A base teórica deste entendimento da Bhagavad Gītā está formulada na tese "Śraddhā in the Bhagavad Gītā" (2007) e está ilustrada ao longo de todo este livro-blog, conforme explica o seu Prefácio.
40. QUINTA SÍNTESE: Assim como a lâmina de uma navalha não pode cortar a si mesma, a mente não se ilumina por ela mesma, mas pelo coração. A ação de meditar e a meditação na ação compõem a via da síntese, que harmoniza a mente, fazendo-a retirar-se dos objetos dos sentidos e residir no coração, fonte de toda śraddhā e poder de realização da essência mais pura (śuddha) do sagrado (dharma).
(Atualizado em 01.09.23)
Para os filósofos gregos depois dos mitos tudo começa a ser feito pela razão já agora tudo passa pelo coração sempre do coração a paz Samurai
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