2022-08-28

O significado da Gītopadeśa

Como reconhecer a verdade e os mestres? Como alcançar a percepção do Ātman? A Bhagavad Gītā expressa esse método de reconhecimento que, a um só tempo, valida e transcende o antigo método védico, fundado: (1) na escuta (śravaṇa), (2) na reflexão (manana) e (3) na reiteração meditativa da reflexão (nididhyāsana).

A figura conhecida como Gītā-Upadeśa, ou melhor, Gītopadeśa, revela a essência da Bhagavad Gītā. O entendimento de que espiritualidade representa algo que transcende a mera esfera religiosa é a marca característica da Gītopadeśa. Ela mostra a Bhagavad Gītā como expressão da metáfora da unificação dos dois pássaros descritos no Ṛigveda (1.164.20), na Muṇḍaka Upaniṣad (3.3.1) e na Māntrika Upaniṣad. Expressa, portanto, como desenvolver o discernimento, ou a visão espiritual (Divyacakṣus), por meio da arte e da ciência da meditação. A Gītopadeśa mostra o Senhor Krishna e Arjuna sentados na quadriga puxada por quatro corcéis brancos. A quadriga simboliza a mente e o corpo humano; Arjuna, a consciência individual (o “si mesmo”, o ser individual, o jīva) condicionada pelo processo objetivo do mundo (saṁsāra); e Krishna, o Espírito que exerce o controle das rédeas, ou da mente emocional (com jurisdição sobre os sentidos). Quando o ser individual (Arjuna, Nara) se deixa dirigir pelo Supremo Espírito (Krishna, Nārāyaṇa), presente em si mesmo, avança pelo caminho que nos conduz do saṁsāra ao nirvāṇa. Esta metáfora, conhecida como Gītopadeśa, representa a síntese da Bhagavad Gītā a partir de sete versos (conhecidos como Saptaślokī Gītā ou a Gītā de Sete Versos: BhG 2.2, BhG 2.3, 2.11, 18.61, 18.62, 18.64 e 18.66). 

2022-06-26

Cara ou coroa: a cultura das eleições polarizadas e a via de síntese

Não há dúvidas de que qualquer governo sempre elege o seu sucessor, ou seja, os governantes são sempre a causa direta da eleição dos seus sucessores. Se o índice de aprovação do governo é alto, os aliados apoiados pelo governo serão eleitos; se o índice de aprovação for baixo, quem se elege são os adversários do governo. Como os índices de um governo são de sua única responsabilidade, assim também o são as suas consequências, expressas no resultado das urnas. Em geral, se quer jogar esta responsabilidade toda na conta do eleitor, fazendo-o se esquecer de que, quando muito, ele permanece apenas como a causa indireta do resultado das eleições. O eleitor mal se dá conta que só dependeria dele o surgimento real de uma via de síntese, fora do jogo de cartas marcadas, da cômoda e distinta alternância entre dois falsos opostos. Isto porque ele desconhece, por exemplo, as razões para que um governo aparentemente bom faça como sucessor o seu oposto. Os governantes, contudo, sempre conhecem muito bem estas razões, embora raramente admitam, ou estejam dispostos a fazerem a necessária “mea culpa”.

2022-06-13

Aprendendo a Meditar no Coração

A meditação é simples e o verdadeiro praticante passa para os leigos e os iniciantes a impressão de que jamais medita. Isto porque ele se torna como Arjuna, que aprendeu de Krishna a fazer da sua vida toda uma meditação no coração. Discreto, leva uma vida ativa, em meditação e, raramente, se deixa flagrar em suas práticas mais íntimas e solitárias de meditação silenciosa.

Há uma conexão entre as duas componentes essenciais das práticas de meditação (concentração e contemplação) e dois centros vitais do nosso corpo, localizados, respectivamente, na região entre as sobrancelhas e no centro do peito. A primeira abriga a sede da atividade racional e da capacidade de concentração; e o segundo, a sede do sentimento intuitivo e sintrópico e da capacidade de amar e contemplar. Estabelecemos e afinamos a sintonia da razão com o coração espiritual por meio das práticas sintrópicas do bhāvana (sentimento amoroso da unidade) e do śuddha prāṇāyāma (respiração amorosa), o mantra natural do processo de respiração. É a esta sintonia fina, implícita no discurso de Krishna na Bhagavad Gītā, que se dá o nome de meditação. Ela se desenvolve em três níveis (externo, interno e transcendente) e, como veremos a seguir, culmina na meditação na ação, conforme o conselho de Krishna à Arjuna para não se entregar à inação.

2022-04-28

Razão e Sentimento: vegetarianismo, Milo e D. Celina (II)

Milo e eu  no Canindé (02.04.17)

Para descrever o meu reencontro com o Milo e o Canindé da D. Celina em 02.04.17, um domingo, vou reproduzir, de forma adaptada, partes do capítulo 3 (intitulado “Felicidade”) do livro Síndrome do Pânico: Aprendendo com a pedagogia da dor (Ed. Litteris: 1998). Vejo agora como os anos tornam mais verdadeiras as palavras que escrevera e que procuram nos resgatar da perda do paraíso infantil, caracterizado pelo encantamento e autêntico espírito de amizade:

Então, buscando outra vez a conexão perdida, mergulho até a infância, dezembro de 1965.

2022-04-06

Síntese do Śuddha Yoga da Bhagavad Gītā

I. Svatantra Mantra,  Dhyāna Mantra & Gītā Mantra

No silêncio de cada dia que amanhece, concentrados no Ājñā Chakra, o ponto de encontro de Iḍā e Piṅgala, onde termina a dualidade, devemos meditar no Ser Imutável (Ātman), e na sua energia cósmica (Brahma-Śākti), personificada como a deidade Śraddhā, símbolo do fogo do coração e do poder do amor em ação. Por meio de śraddhā, a energia divina em nós, forjamos uma vontade altruísta, capaz de nos conduzir à verdade e à vitória sobre as nossas paixões inferiores.

2022-02-28

O Dhyāna Mantra

O Dhyāna Mantra “Haṃsa” está representado
no diálogo da Bhagavad Gītā.
Entre os movimentos contrários de inspiração  e expiração, ocorre uma fração de segundo de não-movimento, como nos pêndulos, que antes de mudarem de sentido, param completamente por um instante. É nesse instante de quietude, entre os sons produzidos na inspiração (haṃ) e na expiração (sa), que ocorre a unificação dos campos interno e externo do ser. Nesse momento em que a respiração permanece suspensa, antes de cada inspiração, o Ser se manifesta no silêncio. A mente e o processo de respiração representam dois aspectos da Consciência estreitamente relacionados entre si. Por isto, o foco na respiração no início das práticas de meditação, nos leva a acalmar a mente. A respiração irregular, 
típica da mente inquieta, é também fonte de inquietação. As Escrituras afirmam que a chave para a harmonização da mente está na compreensão profunda da inspiração (pūraka) e da expiração (rechaca). 

2022-02-21

A Meditação Cristã: a Oração do Coração e o Decreto de Exaltação do Nome de Jesus

I. Meditação Cristã:
a oração dos Padres do Deserto

I.1. Teófano, o Recluso

Há entre os místicos cristãos muitas referências à arte da prece que nos remetem ao que entendemos, modernamente, como a arte da meditação. Em A Arte da Oração – Uma Antologia Ortodoxa, de São Teófano2 (1815-1894), o Recluso, podemos ler:

Sempre e em todo o lugar Deus está conosco, perto de nós e em nós. Mas nem sempre estamos com Ele, visto que não nos lembramos Dele; e porque não nos lembramos Dele nos permitimos muitas coisas que não faríamos se lembrássemos. Esta necessidade de estar direcionado internamente a Deus deve ser plenamente reconhecida, porque todos os erros na vida ativa parecem vir da ignorância deste princípio. Tome para si a regra de sempre estar com o Senhor, mantendo a sua mente em seu coração, e não permita que os seus pensamentos vagueiem...

A pergunta que devemos fazer, portanto, é: como viver em constante estado de comunhão e meditação, aproximando-nos, deste modo, de nós mesmos e da essência sagrada do real, que, a um só tempo, transcende e está presente em todas as coisas? A bússola do processo de meditação, como vimos, é designada, tecnicamente, como śraddhā, a guardiã do coração, que orienta a faculdade da vontade e a nossa conduta. 

2022-01-22

Celebração de trinta e nove anos de casamento

Celebração de casamento (22.01.83 & 06.02.83)
Hoje celebramos trinta e nove anos de casados. O ritual do nosso casamento, como um todo, desenvolveu-se em três etapas: a primeira, de afirmação da matriz da religiosidade ocidental, aconteceu na lua crescente de janeiro de 1983, no dia 22; a segunda, de afirmação da matriz da religiosidade oriental, na lua minguante de fevereiro, no dia 06; e a terceira, constituída pelo período de síntese laica e espiritualista do Śuddha Yoga, estendeu-se pela lua nova de fevereiro, até a nossa partida do Ashram Atma, onde estava sendo constituída a primeira célula do Śuddha Sabha Ātma. 

2022-01-03

Feliz 2022!

Que o Ano Novo represente o início do aprendizado sobre a arte e a ciência psicopolíticas, capazes de unificar o país e fazer prosperar os seus cidadãos e cidadãs.

Que possamos desenvolver a força moral e a coragem necessárias para atender a máxima da filosofia do coração, reproduzida na mensagem teológica ao lado. Basta que se compreenda o termo "Deus" como "Consciência", "Luz", "Chama Ardente do Coração" etc., para se reconhecer nela a filosofia do coração, que orienta a arte e a ciência da meditação.

Quando a mente se aquieta no coração, contempla em 3D o que antes percebia de forma plana e polarizada. A mensagem deixa claro que não importa como a parte egoica e polarizada de qualquer pessoa a posiciona mais para a esquerda ou para a direita do espectro político. Segundo a filosofia do coração, merece respeito e voto de confiança quem estiver se esforçando, na práxis do cotidiano, para superar as dicotomias egoicas, que nos afastam da verdade e do coração. Os demais deveriam se declarar, ou serem declarados, por motivos óbvios, impedidos de se candidatar a qualquer cargo político.

Que em 2022 aprendamos a contemplar, no coração, como nos posicionar e dar sentido e vida a cada um de nossos minúsculos votos!

Próximo texto: A Perfeita Alegria do Satsañga do Dia de Ação de Graças

Rio de Janeiro, 03.01.22
(Atualizado em 06.01.22)

2021-12-31

A Jornada do saṃsāra ao nirvāṇa em quarenta movimentos

​A Bhagavad Gītā no Mahābhārata:​
Sanjaya narra para o rei cego Dhritarashtra a revelação do Śuddha Yoga



As quarenta proposições a seguir ilustram como o Krishna Yoga, revelado na Bhagavad Gītā sob a luz de śraddhā, nos conduz, por meio da arte e da ciência da meditação, do saṃsāra ao nirvāṇa. 

01. Cada novo dia é uma oportunidade de iniciação na jornada do herói, resumida por Joseph Campbell. Para que esta iniciação ocorra e/ou se atualize, temos que tomar a resolução firme de seguir adiante, lutando para não cair ante o desânimo e todas as demais dificuldades que forem se apresentando como provas, ou obstáculos, ao desabrochar de nossa śraddhā. Colocado em termos da filosofia grega, este desabrochar, que indica o estágio alcançado em nossa jornada do saṃsāra ao nirvāṇa, guarda semelhanças com o processo descrito na Alegoria da Caverna de Platão.

2021-12-27

A Homossexualidade no Contexto da Tradição Védica

Pārśvanātha Mandir (Janeiro de 2010)
Templo jainista do século décimo em Khajuraro

Se a partir de Freud a homossexualidade passou a ser classificada no ocidente como uma doença mental (somente em 1993 a OMS a retirou da lista de doenças mentais), na Índia a literatura sânscrita sempre preferiu considerar a existência de um “terceiro gênero” (tṛtīya prakṛti).  Desde os textos védicos, discutem-se as várias possibilidades de gênero, a homossexualidade (samaliṅgakāma), a bissexualidade (ubhayaliṅga), os hermafroditas (napuṁsakas) e os desvios de sexualidade causados pela impotência (klība). A cultura indiana constitui-se como um somatório de práticas religiosas, seitas e doutrinas contraditórias, que afirmam, ou rejeitam, a autoridade da literatura védica, conhecida como Sanātana Dharma (A Lei Eterna). O budismo, por exemplo, embora na Índia tenha sido assimilado pelo hinduísmo, rejeita a autoridade dos Vedas, tanto no Dhammapada (expressão do idioma páli que traduz o sânscrito Dharma-pada, a via do Dharma), como em todo o restante do seu Cânone.  Então, a pergunta que se pode fazer e que pretendemos responder neste artigo é: qual é a posição da literatura sagrada da Índia e dos seus seguidores com relação ao tema da homossexualidade?

2021-12-07

Inteligência Artificial, Espiritualidade e a Alegoria da Caverna

Alegoria da Caverna de Platão
Esta semana, enquanto assistia a alguns vídeos sobre inteligência artificial (IA) e espiritualidade, deparei-me com um alerta para os perigos da IA, das redes sociais, dos celulares etc. O vídeo ilustrava, a partir da Alegoria da Caverna de Platão (veja aqui), como a internet podia nos afastar da "realidade" e de nós mesmos. A Alegoria da Caverna, descrita mais abaixo, discute os fundamentos da realidade de forma bastante similar à Bhagavad Gītā. Tanto o texto de Platão como o do lendário sábio Vyāsa postulam a existência de uma realidade eterna, que transcende a existência mundana, experimentada pelos sentidos. A libertação da caverna simboliza a libertação da mente do seu funcionamento orientado pelas aparências (BhG 2.67). Na Alegoria da Caverna, o homem vê a luz do sol fora da caverna e retorna para salvar os seus companheiros, mas estes não o podem compreender. Pelo contrário, o ridicularizam e o condenam à morte. O texto de Platão pode ser considerado uma resposta à condenação de Sócrates. Sócrates era aquele homem liberto, que recolhera os seus sentidos dos objetos dos sentidos, tal qual a tartaruga recolhe os seus membros para debaixo do casco (BhG 2.58), e que aprendera a se deixar iluminar pela luz do sol do seu coração. 

2021-11-10

Sūrya-charita: o desenvolvimento da hagiografia de Francisco Barreto

Este artigo discute a hagiografia (Sūrya-charita) de Francisco Barreto (25.11.1950 – 13.11.2020) e presta-lhe uma homenagem póstuma nesta semana em que se celebra o primeiro ano da sua passagem. Francisco faleceu na sexta-feira, dia 13 de novembro de 2020, pouco antes da meia noite. O seu sepultamento deu-se na Fazenda Mãe Natureza, conforme o seu desejo. O desenvolvimento da hagiografia de Francisco, sob a forma de uma espécie de “memorial do futuro”, baseia-se em passagens criteriosamente selecionadas de alguns de seus vídeos, deixados por ele sob a minha guarda e responsabilidade. A playlist Sūrya-charita (veja aqui) desenvolve-se em conformidade com os ideais da Universidade do Coração, definidos em nossa casa, no ato da sua criação, nos dias de 03 a 05 de fevereiro de 2012.

2021-11-06

Meditação e Espiritualidade: Referências para Estudo e Pesquisa

I. SELEÇÃO DE VÍDEOS
PARA ESTUDOS INTRODUTÓRIOS
E/OU APROFUNDAMENTO

1. O que é meditação segundo a Bhagavad Gītā?

Os três vídeos abaixo ilustram como realizar a meditação do coração, de que trata a Bhagavad Gītā. A marca característica (lakṣaṇa) dos praticantes das formas superiores de meditação (veja aqui) é a capacidade que desenvolvem de agir de forma amorosa e altruísta, em conformidade com a consciência da verdade e da justiça, expressões da lei universal (Ṛta). A meditação nos emancipa da sujeição à nossa materialidade instintiva e promove o desenvolvimento do altruísmo, característico da consciência espiritual.

2021-10-28

Dinacaryā: uma rotina diária fundada na liberdade do coração

Espiritualidade é ter a vida como o maior guru. 

Quando nos identificamos com o fogo ardente do coração, quando nos tornamos uma expressão de paz e amor, experimentamos a vida toda como um milagre. Este é o sentido do Dhyāna Mantra “Haṃsa”. “Haṃsa” simboliza o processo de individuação do Ser. Trata-se de um termo sânscrito que significa “cisne” e simboliza o Espírito (Ātman). A expressão “Haṃ-sa” significa, literalmente, “Eu sou (‘haṃ) Aquilo (sa)”, e pode ser entendida como: "eu sou o fogo ardente do coração" ou "eu sou a presença da paz e do amor em ação". 

O Dhyāna Mantra traz implícito o entendimento de que devemos renunciar (saṃnyāsa) a todo alimento e estímulo, recebido pelos cinco sentidos e pela mente, caracterizado pelo descontrole ou pela violência. Ele representa um convite para que nos consagremos (tyāga), de coração, ao exercício de ver em cada minúsculo desafio que a vida nos apresenta uma oportunidade de disciplina interior (tapas), silêncio do ego (yajña), e doação  de si mesmo (dāna), de tal modo a podemos afirmar com convicção: "Eu sou o fogo ardente do coração em ação; eu sou a presença da paz e do amor em ação".

2021-10-15

Onde quer que você esteja, seja a alma do lugar . . .

Há exatos cinco anos esta reflexão canônica tinha início, com o artigo "A Meditação do Coração segundo a Bhagavad Gītā", celebrando o Dia do Mestre, este interpretado, principalmente, em seu sentido mais profundo de Ācārya, mentor, ou guru espiritual, cuja missão de vida pode ser resumida na máxima: "Eu não vim para te ensinar, eu vim amar. O amor te ensinará". É exatamente este o espírito de todo o compêndio, que reflete sobre a educação maiêutica (oposta às atuais tecnologias da deseducação) e busca fundamentar a arte e a ciência da meditação, em conformidade com os ideais da nascente Universidade do Coração, da qual somos colaboradores.

Quando chegamos ao Rio, em janeiro de 1991, Cássia e eu ainda não sabíamos exatamente porque estávamos vindo para cá e não para São Paulo, de onde partíramos para nos juntar ao projeto pioneiro desenvolvido por Francisco Barreto, em Sergipe. Não sabíamos, até então, que iríamos colaborar para plantar, no Rio de Janeiro, as sementes da meditação do coração e da espiritualidade laica e pura da Universidade do Coração. E se há uma palavra que abranja e resuma o segredo deste processo de germinação, esta palavra é "disciplina". As linhas que se seguem, portanto, pretendem sintetizar a disciplina pessoal, aprimorada ao longo dos anos, com vistas a nos aproximar da nossa meta.