2016-12-01

Coração Tranquilo: ressignificando a Haṃsa Tattoo


Hoje (01.12.16) faz seis meses que viajei para São Paulo para realizar a segunda cirurgia do câncer na língua. Internei na quarta-feira e fiz a segunda cirurgia1 na quinta, 02.06.16. No dia da internação, saímos cedo do Rio de Janeiro e fomos para o apartamento de minha mãe. Almoçamos no restaurante vegano Annaprem e seguimos para o ICESP.  Foi nesta cirurgia que ganhei a minha "Haṃsa Tattoo". O vídeo abaixo ilustra o que ela significa para mim: "Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo", como  diz o mantra do socialista zen Walter Franco.



Este Diário é a bússola anti-psicanalítica de que me valho para alcançar o porto seguro do Ser. A cicatriz que carrego no pescoço é a minha Haṃsa Tattoo, a "tatuagem" que me indica a presença do sagrado alento vital neste corpo do qual me nutro. Ela me protege e abençoa, pois salvou a minha vida e me permite continuar trabalhando pela minha realização e daqueles que me são próximos. Ela representa a minha Ṛṣi-nyāsa2 -- ou seja, a minha disciplina de internalização e incorporação (nyāsa) do ideal de unificação com a esfera dos seres divinos e santos (Ṛṣi). Sempre que caio distraído e necessitado, basta-me lembrar desta sagrada cicatriz e já me alinho, em sintonia e sob o amparo e proteção da Graça Suprema. Ela é o registro histórico de uma iniciação pela dor, como o são,  em sua maioria, os ritos de passagem -- o maior de todos representado pela própria morte (ritos de Śrāddha). Simboliza a advertência contida em Luz no Caminho, de Mabel Collins, de que "Antes que a voz possa falar em presença dos Mestres, deve ter perdido a possibilidade de ferir".

 O Coração Tranquilo e a Arritmia Cardíaca

Tudo é como tem que ser. Minha primeira cirurgia da língua, por robô, tinha tudo para ter sido simples e definitiva. Contudo, eu não sabia que sofria de uma arritmia, que ora se manifestava como taquicardia, ora como bradicardia e ora como fibrilação atrial. Era uma arritmia assintomática, de raríssimos episódios, não detectados até então. E ela se manifestou exatamente durante a cirurgia, que teve que ser interrompida, pois tive três paradas cardíacas, aparentemente inexplicáveis. Em função disto, depois refazer todos os exames do coração e nada ser detectado, uma segunda cirurgia foi marcada. Desta vez tudo correu bem. Não restava quase mais nada para ser retirado da língua e, por isto, havíamos concordado que, de maneira preventiva, oslinfonodos do lado direito do rosto também seriam retirados durante a cirurgia. Foi esta remoção que deixou a cicatriz, batizada como Haṃsa Tattoo, a cicatriz da minha segunda cirurgia, que só ocorreu em função da minha fibrilação atrial, posteriormente detectada e controlada, por meio de medicamentos, um procedimento de cardioversão e outro de ablação. Nascia, desta forma, em mim este vínculo íntimo, simbolizada na cicatriz, entre o meu coração físico e atordoado e o meu coração espiritual e tranquilo. Hoje se sabe que a manifestação deste vínculo é real e menos incomum do que se costuma acreditar. Já está comprovado pela ciência, por exemplo, que arritmia cardíaca de Beethoven representa o segredo mais oculto da sua arte e disciplina interior. Com o agravamento da sua surdez ele passou a prestar cada vez mais atenção às pulsações do seu coração para regular os compassos das suas obras.

Beethoven foi o primeiro compositor a proporcionar aos ouvintes a sensação inesperada da pulsação irregular que parece vir diretamente do batimento cardíaco. Conseguiu colocar para fora e sublimar a sua tormenta interior. As principais orientações que dava aos músicos que iriam interpretar suas obras incluiam a palavra "beklemmt" (peso de coração), que tem conotações sugerindo a sensação de falta de ar das pessoas que sofrem de arritmia. O ritmo desiquilibrado e irregular evocam esta falta de ar, como sugere o artigo “The heartfeld music of Ludwig van Beethoven” (“A música de coração de Beethoven”) de John Howell, Zachary D. Goldberger e Steven M. Whiting, publicado na revista “Perspectives in Biology and Medicine” (John Hopkins University Press). O artigo demonstra que as alterações dos ritmos das suas músicas correspondem a batidas irregulares, similares àquelas das afecções do coração.  As suas pulsações aceleradas da arritmia e as lentas, típicas da braquicardia, e finalmente, a oscilação entre batidas lentas e aceleradas, encontradas nos episódios de fibrilação atrial o teriam levado a aprender a ouvir as batidas e a música do seu próprio coração, a sua a maior fonte de inspiração. 


Em suma, queria compartilhar este meu esforço para colocar em prática a disciplina ióguica universal, que nos ensina a ver nas doenças uma oportunidade nova para se aprender a manter o coração em paz e tranquilo. Este tema do coração tranquilo está ilustrado no vídeo abaixo, que traz participação de Walter Franco no programa do Jô, em 1990. Segundo as suas palavras, o segredo para transcender a todo o "ódio ideológico" que impede "que este país volte a ter alegria" está nesta disciplina do coração


Um Testemunho

Em 19.02.16, uma Quarta-feira de Cinzas, enquanto me preparava, psicologicamente, para enfrentar o tratamento do câncer recém-diagnosticado, experimentei, por alguns momentos, durante a prática de meditação, de um estado sintrópico de unidade. Fazia uso do mantra "OM haṃ-sa so‘haṃ" (OM, Eu Sou em mim), que é parte do  do Svatantra Mantra, e vi como cada instante da vida nos dá a oportunidade de aprender a enfrentar com  destemor, gratidão e confiança todos os desafios que o dia-a-dia nos apresenta.

Fechar os olhos e observar a mente não era diferente de observar a mente de olhos abertos, enquanto esta observa e experimenta do mundo, parecia ouvir de alguma fonte espiritual. Percebemos isto mais facilmente quando relaxamos os olhos  e contemplamos o céu e as estrelas, sugeria esta voz interior. O mundo podia ser experimentado como um espelho, que reflete a nós mesmos: a nossa mente se revela para nós quando nos damos conta de que ela não apreende o mundo e sim as nossas representações do mundo. Quando percebo que só consigo experimentar o mundo como uma representação mental, vejo diluirem-se as fronteiras entre o observador e a coisa observada, entre o sujeito e o objeto -- estes se tornam uma e a mesma coisa. E daí surge a visão do infinito.

Por alguns segundos vivi algo que só posso descrever tomando como ilustração aquele efeito de reprodução infinita que acontece quando tiramos uma selfie na frente de um espelho. Pude experimentar, por algumas frações de segundo, do estado de "Haṃ-sa, haṃ-sa" ("Eu Sou Ele, Eu Sou Ele"), caracterizado pela sublimação do egoísmo (saṃnyāsa) e comunhão com o sagrado (tyāga). Estava no lago da consciência cósmica do Eu Sou (Haṃ, eu sou; saḥ, isto – o Ser), onde os dois pássaros da metáfora védica unificam-se no cisne, "haṃsa", revelando-nos o infinito que somos nós mesmos. Meu alento vital era uma manifestação da entropia sintrópica que nos coloca em movimento a cada novo dia. Eu era um com a fonte de onde emana a Amṛita, ou água da vida. Estava experimentando a respiração como um processo entrópico e sintrópico, que promovia a minha identificação com o Ser  no coração – “ahaṃ (eu sou) saḥ (aquilo), ahaṃ (eu sou) saḥ (aquilo)”.

Despertamos a consciência de que a prática de meditação permanece conosco o dia todo, em cada minúscula respiração, quando aprendemos a reservar alguns minutos do nosso dia ao Dhyāna Mantra Haṃsa, expresso no alento vital que nos unifica ao cosmos. Em função das regras gramaticais do sânscrito (sandhi: saḥ + ahaṃ = so 'haṃ), quando a expressão “ahaṃ (eu sou) saḥ (aquilo)” é repetida em sequência, o que ouvimos é “... haṃ-so-haṃ-so-haṃ-so-haṃ...” tal qual temos no processo da respiração. Daí também o mantra do cisne Haṃsa  se chamar “Haṃ so”. Esse mantra é enaltecido em outro mantra, conhecido como  Svatantra Mantra: "OṂ haṃsas so'haṃ yogeśvarīṃ hrīṃ svāhā". Ele indica que o estado de meditação permanece latente em cada minúscula respiração e pode ser traduzido como "OṂ, eu sou o Eu Sou, saudações a Śrī Yoga Devī". O Svatantra Mantra é parte da disciplina diária de Yoga Sāndhya (Yoga do Amanhecer) descrita nos parágrafos 169 a 195 da seção chamada Ātma Snāna (Purificação pela Água para a realização do Espírito) do Sanātana Dharma Deepika, Volume I (Madras, 1917; pp. 107 - 113). 

(1) No dia 19.10.18 realizei a terceira cirurgia. Desta vez foi simples. A internação ocorreu dia18 e tive alta da internação dia 20. A alta do câncer ocorreu em 01.11.24.


(2) Para conhecer a pronúncia das palavras sânscritas veja o nosso resumo do Guia de Transliteração e Pronúncia das palavras sânscritas.


SUMÁRIO GERAL

Rio de Janeiro, 01.12.16.
(Atualizado em 04.11.24)

4 comentários:

  1. Grato pelo feedback, Quiroga. O depoimento pretende retratar a história de uma iniciação pela dor, como o são em sua maioria os ritos de passagem -- o maior de todos representado pela própria morte (ritos de Śrāddha - com acento tônico no primeiro "a").

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  2. Importante reflexão sobre a angustia da dor... Quando ela é compartilhada com familiares e amigos ela, ainda que momentaneamente ,se dissipa e sorri na foto. Fico honrada em fazer parte do núcleo duro e ter aprendido contigo a ser um pouco mais humana e compreensiva. bejo carinhoso

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    1. Oi, Any. Grato, amiga! É isso mesmo, "nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos" -- esta é a ideia do núcleo duro do nosso grupo de estudos.

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