Hoje (01.12.16) faz seis meses que viajei para São Paulo para realizar a segunda cirurgia do câncer na língua. Internei na quarta-feira e fiz a segunda cirurgia1 na quinta, 02.06.16. No dia da internação, saímos cedo do Rio de Janeiro e fomos para o apartamento de minha mãe. Almoçamos no restaurante vegano Annaprem e seguimos para o ICESP. Foi nesta cirurgia que ganhei a minha "Haṃsa Tattoo". O vídeo abaixo ilustra o que ela significa para mim: "Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo", como diz o mantra do socialista zen Walter Franco.

Em 19.02.16, uma Quarta-feira de Cinzas, enquanto me preparava, psicologicamente, para enfrentar o tratamento do câncer recém-diagnosticado, experimentei, por alguns momentos, durante a prática de meditação, de um estado sintrópico de unidade. Fazia uso do mantra "OM haṃ-sa so‘haṃ" (OM, Eu Sou em mim), que é parte do do Svatantra Mantra, e vi como cada instante da vida nos dá a oportunidade de aprender a enfrentar com destemor, gratidão e confiança todos os desafios que o dia-a-dia nos apresenta.
Fechar os olhos e observar a mente não era diferente de observar a mente de olhos abertos, enquanto esta observa e experimenta do mundo, parecia ouvir de alguma fonte espiritual. Percebemos isto mais facilmente quando relaxamos os olhos e contemplamos o céu e as estrelas, sugeria esta voz interior. O mundo podia ser experimentado como um espelho, que reflete a nós mesmos: a nossa mente se revela para nós quando nos damos conta de que ela não apreende o mundo e sim as nossas representações do mundo. Quando percebo que só consigo experimentar o mundo como uma representação mental, vejo diluirem-se as fronteiras entre o observador e a coisa observada, entre o sujeito e o objeto -- estes se tornam uma e a mesma coisa. E daí surge a visão do infinito.
Por alguns segundos vivi algo que só posso descrever tomando como ilustração aquele efeito de reprodução infinita que acontece quando tiramos uma selfie na frente de um espelho. Pude experimentar, por algumas frações de segundo, do estado de "Haṃ-sa, haṃ-sa" ("Eu Sou Ele, Eu Sou Ele"), caracterizado pela sublimação do egoísmo (saṃnyāsa) e comunhão com o sagrado (tyāga). Estava no lago da consciência cósmica do Eu Sou (Haṃ, eu sou; saḥ, isto – o Ser), onde os dois pássaros da metáfora védica unificam-se no cisne, "haṃsa", revelando-nos o infinito que somos nós mesmos. Meu alento vital era uma manifestação da entropia sintrópica que nos coloca em movimento a cada novo dia. Eu era um com a fonte de onde emana a Amṛita, ou água da vida. Estava experimentando a respiração como um processo entrópico e sintrópico, que promovia a minha identificação com o Ser no coração – “ahaṃ (eu sou) saḥ (aquilo), ahaṃ (eu sou) saḥ (aquilo)”.
Despertamos a consciência de que a prática de meditação permanece conosco o dia todo, em cada minúscula respiração, quando aprendemos a reservar alguns minutos do nosso dia ao Dhyāna Mantra Haṃsa, expresso no alento vital que nos unifica ao cosmos. Em função das regras gramaticais do sânscrito (sandhi: saḥ + ahaṃ = so 'haṃ), quando a expressão “ahaṃ (eu sou) saḥ (aquilo)” é repetida em sequência, o que ouvimos é “... haṃ-so-haṃ-so-haṃ-so-haṃ...” tal qual temos no processo da respiração. Daí também o mantra do cisne Haṃsa se chamar “Haṃ so”. Esse mantra é enaltecido em outro mantra, conhecido como Svatantra Mantra: "OṂ haṃsas so'haṃ yogeśvarīṃ hrīṃ svāhā". Ele indica que o estado de meditação permanece latente em cada minúscula respiração e pode ser traduzido como "OṂ, eu sou o Eu Sou, saudações a Śrī Yoga Devī". O Svatantra Mantra é parte da disciplina diária de Yoga Sāndhya (Yoga do Amanhecer) descrita nos parágrafos 169 a 195 da seção chamada Ātma Snāna (Purificação pela Água para a realização do Espírito) do Sanātana Dharma Deepika, Volume I (Madras, 1917; pp. 107 - 113).
grato pelo depoimento. saúde!
ResponderExcluirGrato pelo feedback, Quiroga. O depoimento pretende retratar a história de uma iniciação pela dor, como o são em sua maioria os ritos de passagem -- o maior de todos representado pela própria morte (ritos de Śrāddha - com acento tônico no primeiro "a").
ResponderExcluirImportante reflexão sobre a angustia da dor... Quando ela é compartilhada com familiares e amigos ela, ainda que momentaneamente ,se dissipa e sorri na foto. Fico honrada em fazer parte do núcleo duro e ter aprendido contigo a ser um pouco mais humana e compreensiva. bejo carinhoso
ResponderExcluirOi, Any. Grato, amiga! É isso mesmo, "nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos" -- esta é a ideia do núcleo duro do nosso grupo de estudos.
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