2025-12-30

O Sopro que Nomeia o Ser


Ruach, Śabda e a Ontologia do Inefável

🌿 Epígrafe

प्राणो हि भूतानां जीवनं परमं स्मृतम् ।
तस्मिन्सर्वं प्रतिष्ठितं यथा सूत्रे मणिगणाः ॥

O prāṇa é a vida suprema de todos os seres;
nele tudo repousa, como pérolas sustentadas por um fio.

Mahābhārata, Śānti Parva (bhāva-anusāra)
(inspirado em passagens como 12.47; 12.184; 12.294)

I. O Nome que não se pronuncia

A tradição bíblica preserva um dos gestos mais radicais da história do pensamento: o Nome de Deus não se pronuncia. O tetragrama YHWH permanece envolto em silêncio, não por ausência de sentido, mas por excesso de presença. Trata-se de um nome que não se deixa fixar na voz, porque designa aquilo que precede toda nomeação. Não é um objeto do discurso, mas a própria fonte do dizer.

Quando Moisés pergunta pelo Nome, a resposta não oferece definição, mas movimento: Ehyeh Asher Ehyeh — “Eu Sou o que Sou” ou, mais precisamente, “Serei o que serei” (Êxodo 3:14). O verbo precede o substantivo. O ser se revela como acontecimento, não como essência estática. A identidade divina manifesta-se como presença que advém, como existência que se doa no tempo sem jamais se esgotar nele. Não se trata de um nome fixo, mas de um sopro verbal: um dizer que acontece como respiração do ser. A própria raiz do verbo “ser” em hebraico (h-y-h / h-w-h) ecoa o movimento do fôlego — um dizer que se exala mais do que se pronuncia.

Assim, o tetragrama YHWH não nomeia um ente supremo entre outros, mas aponta para o próprio ato de ser — o sopro originário que sustenta todas as coisas sem jamais se confundir com elas. Seu silêncio fonético não é ausência, mas resguardo do mistério: o Nome só pode ser vivido, nunca possuído.

II. Ruach: o sopro como princípio ontológico

A tradição hebraica expressa essa realidade por meio da palavra ruach, termo que reúne em si os sentidos de vento, sopro e espírito. Desde o início, a ruach Elohim paira sobre as águas primordiais (Gn 1:2), não como força externa, mas como vibração gestante, princípio dinâmico da criação. O cosmos nasce do sopro.

Esse mesmo sopro anima o ser humano quando Deus insufla em suas narinas o nishmat ḥayyim, o alento da vida (Gn 2:7). Não se trata de uma metáfora poética, mas de uma ontologia do vivente: existir é participar de um fluxo respiratório que não pertence ao indivíduo, mas o atravessa. A vida não é possuída — é recebida.

Nesse sentido, o humano não “tem” o sopro: ele é continuamente sustentado por ele. A existência é respiração partilhada com o Absoluto. Viver é ser inspirado.

III. Śabda e o sopro do sentido

A tradição védica, por sua vez, reconhece no śabda — o som primordial — a matriz de toda manifestação. Antes da forma, antes do conceito, há vibração. O śabda-brahman não é um som físico, mas a inteligibilidade vibrante do real, aquilo que torna possível qualquer experiência de sentido.

O som primordial, expresso simbolicamente como AUṂ, não é produzido: ele é escutado. Sua escuta não se dá pelos ouvidos, mas pelo recolhimento do ser. Assim como o Nome impronunciável do Deus bíblico, o som primordial não pode ser apreendido como objeto. Ambos pertencem à ordem do originário.

Aqui se revela uma convergência notável: o ruach hebraico e o prāṇa védico não são substâncias, mas movimentos de doação do ser. Ambos indicam que a realidade última não se impõe — ela respira.

Assim como o Davar (Palavra e Ato)  bíblico não descreve, mas realiza, o Śabda védico não representa, mas manifesta. Ambos pertencem à ordem do real que se diz a si mesmo — não por descrição, mas por irradiação.

IV. Haṃsa, So’ham e o reconhecimento do Ser

É nesse horizonte que a fórmula respiratória védico-tântrica haṃsa / so’ham adquire sua densidade ontológica. Não se trata de um mantra no sentido técnico, mas da escuta do próprio ritmo do existir, onde a vida encarnada busca sua origem.

Ao inspirar, ham — o “eu” que desperta, a afirmação da vida consciente. Ao expirar, sa — o “Ele”, o Absoluto em que esse eu se expande e repousa.

Ou, inversamente, conforme a via védica:

Ao inspirar, so — “Ele”. Ao expirar, ham — “eu”.

Aqui não há contradição, mas circularidade viva. O que respira não é um sujeito isolado, mas o próprio Ser reconhecendo-se no ritmo da vida. Do mesmo modo, o haṃsa não se força: ele se revela quando o esforço cessa.

Ambos testemunham o mesmo mistério: o ser humano não é uma entidade separada que busca o divino; é o próprio movimento pelo qual o divino se reconhece no mundo.

Assim como o haṃsa não é proferido, mas escutado no ritmo do próprio viver, o Nome impronunciável de YHWH não se diz sem se perder. Ambos indicam um limiar onde a palavra cede lugar à presença, e o dizer se converte em escuta.

V. Hṛdaya e Shekhinah: o lugar da Presença

A tradição judaica fala da Shekhinah — a presença que habita, que acompanha, que se recolhe com o povo no exílio. Não é uma abstração metafísica, mas uma presença íntima, quase vulnerável, que habita o entre.

Do mesmo modo, a tradição védica situa no hṛdaya não um órgão, mas um espaço ontológico: o lugar onde o Ser se reconhece a si mesmo. Não é centro geométrico, mas centro de presença.

Quando o sopro se aquieta — não por repressão, mas por plenitude — o coração torna-se transparente. Nesse silêncio, o humano não se dissolve, mas se revela como passagem. O hṛdaya torna-se morada do indizível, assim como a Shekhinah habita o espaço entre Deus e o mundo.

VI. A ponte respirante

É aqui que a ponte entre Oriente e Ocidente se revela não como construção intelectual, mas como reconhecimento de uma origem comum.

O AUṂ não é um som entre outros, mas a vibração de tudo o que é.

O YHWH não é um nome entre outros, mas a respiração do Ser.

Ambos apontam para aquilo que não pode ser possuído, apenas escutado. Ambos convidam a uma prática de atenção silenciosa, onde o humano deixa de se afirmar como centro e aprende a habitar o sopro que o sustenta.

Nesse sentido, haṃsa e ruach não são metáforas equivalentes, mas expressões complementares do mesmo mistério: o Ser que se diz respirando.

VII. Epílogo — O sopro que permanece

Respirar é participar de um mistério que nos antecede.
Inspirar é acolher o dom de existir.
Expirar é devolvê-lo ao silêncio que tudo sustém.

Entre o som e o silêncio, entre o nome e o indizível, o Ser se reconhece.

E o humano, quando escuta profundamente, descobre que nunca respirou sozinho.