Nota Introdutória: Este registro encerra as reflexões sobre a Pitṛ-ṛṇa (dívida com os ancestrais), integrando um achado recente que ilumina a travessia descrita neste capítulo. Mais do que um resgate histórico, trata-se de um testemunho de como o Śraddhā Yoga se manifesta como uma memória viva, confirmando que os laços de família são, em última análise, reencontros de propósitos espirituais.
Receber o livro As Grandes Indagações, escrito por meu tio Paulo Barretto aos 91 anos, e lançado no final de 2024, foi mais do que um presente; foi um choque de reconhecimento ontológico. Ao ler suas reflexões sobre o monismo, a sintonia entre ciência e religião e a defesa ética do vegetarianismo, percebi que as águas que alimentam o meu Śraddhā Yoga já corriam, com igual vigor, em solo ancestral. O que torna esse encontro extraordinário é o fato de que quase não tivemos contato ao longo da vida; não houve mimetismo ou influência direta, mas o "eixo" é o mesmo. Esse reconhecimento é, para mim, um dado de darśana: não uma ideia sobre a unidade, mas um traço do real que se mostra — como se a linhagem fosse um dos modos pelos quais o Hṛdaya-Guru confirma a direção. Onde ele vê a "Queda e o Retorno" do espírito, eu vejo a Entropia e a Sintropia da consciência. Onde ele aponta o elétron como ponte para o invisível, eu busco a Consciência Fractal.
Reconhecer essa continuidade é cumprir com a Pitṛ ṛṇa, a dívida sagrada para com os que vieram antes. Nesse contexto, podemos entender o nascimento como uma nova possibilidade de reencontro com a nossa própria ancestralidade divina. As famílias resgatam-nos do nosso passado, e cada pai ou mãe atua como um representante da lei cósmica no zelo pela criação. Esta "veia" espiritualista manifestou-se em mim através de inúmeras experiências interiores que me levaram a compreender que o trabalho das novas gerações não é uma ilha, mas o desdobramento de uma linhagem invisível, síntese dos dois lados familiares que auxiliam o equilíbrio entre o céu e a terra. É à síntese desses dois lados que hoje saúdo:
- Edison Barretto (meu avô materno): De alma austera e culta, ensinou-me o amor às coisas do espírito e a importância da organização — "um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar". Como um pioneiro que experimentava o novo aos 80 anos, plantou em mim a semente da busca pela disciplina espiritual que promove a qualidade do Ser.
- Angelina Medicci (minha avó paterna): A força da linhagem italiana que encarnou a coragem de recomeçar. Se foi o meu "embate" vital sobre o vegetarianismo na infância, legou-me também a determinação de quem nunca volta atrás na palavra empenhada.
- Sérgio Barretto (meu tio): Instrutor de Śuddha Rāja Yoga que me apresentou à tradição védica e ao meu amigo e mentor, Francisco Barreto, conduzindo-me até ao Hṛdaya
. - Paulo Barretto (meu tio): Através da sua obra, confirma que a busca pela síntese entre ciência e espírito é uma constante que atravessa gerações. Hoje o vejo como um elo que confirma essa continuidade.
Deste modo, a identidade da alma torna-se perceptível por meio dos laços que nos unem. Como descreve o Yajurveda, herdamos três débitos (Ṛṇa-trayi) que são, na verdade, pontes: Deva-ṛṇa (com o divino), Ṛṣi-ṛṇa (com os sábios e mentores) e Pitṛ-ṛṇa (com os ancestrais). Agradeço a todos por serem o espelho que confirma: a busca pelo coração lúcido (Hṛdaya) é o fio de Ariadne que herdei da família para me reencaminhar à Morada do Ser. Pitṛ-ṛṇa é também uma forma de conhecimento: o real se confirma por reencontros.
Pois o coração que encontra sua morada não se fecha em si mesmo; ele transborda. Uma vez reconhecido o solo ancestral e firmado o eixo interior, o Ser está pronto para o passo seguinte: transformar a quietude da alma na ação que funda uma nova cultura. Deixamos o território do testemunho individual para ingressar na construção coletiva: a Civilização da Síntese.
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Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2026.
(Atualizado em 15.02.26)
