O termo 'meditação' sofreu no uso contemporâneo um empobrecimento ontológico. Reduzido a técnica psicológica, método de relaxamento ou, no máximo, a práticas budistas específicas, seu sentido foi deslocado do eixo que o sustentava nas tradições de sabedoria. Esta redução não é meramente semântica ou conceitual; ela é, fundamentalmente, ontológica. Ao empobrecer o sentido da prática, obscurece-se a própria compreensão do ser humano que a realiza. O Śraddhā Yoga propõe-se, assim, a uma tarefa de restauração do eixo — e para isso, estabelece uma distinção metodológica fundamental.
Meditação: um nome pedagógico
No vocabulário do Śraddhā Yoga, meditação é mantida como nome pedagógico. Ela designa práticas, exercícios, métodos, programas e escolas historicamente reconhecíveis. Nesse sentido, falar em “meditação” é útil — e muitas vezes necessário — quando o objetivo é orientar, ensinar, comparar tradições ou introduzir o praticante em um caminho disciplinado. Mas o nome pedagógico não esgota a realidade que aponta. Quando tomado como definição última, o termo meditação tende a ocultar o que há de mais decisivo: o fato de que a experiência não é, em sua essência, um fazer técnico, mas um modo de habitar o real.
Contemplação: o nome ontológico
A contemplação pertence à natureza do ser, e não a um comportamento do ser. Por isso, no Śraddhā Yoga, o termo contemplação ocupa o lugar central. Ele não se refere a uma técnica, mas a um estado de ser. Contemplar não é suspender a inteligência, mas permitir que ela se organize a partir de seu centro mais profundo. Não é negar o pensamento, mas recolocá-lo em sua justa função: servir à verdade que o precede.
A contemplação integra foco, lucidez, afeto e responsabilidade. Ela não se opõe à ação, nem ao pensamento; ao contrário, é o solo a partir do qual ambos se tornam justos. É nesse sentido que o Śraddhā Yoga pode ser compreendido como a arte e a ciência da contemplação.
Aqui, torna-se necessário fixar uma distinção que orientará toda a leitura da obra:
Meditação é o nome pedagógico; contemplação é o nome ontológico(e dhyāna é o nome tradicional quando o real pede precisão).
Dharāṇā, dhyāna e o erro do “não pensar”
Grande parte das confusões modernas decorre de uma leitura empobrecida de dharāṇā e dhyāna. Dharāṇā, na tradição dos Yoga Sūtras, não é fixação mental nem obsessão por um objeto; é estabelecimento de critério. É o gesto pelo qual a atenção se ancora no essencial e deixa de ser arrastada pela dispersão.
Conforme a fonte canônica de Patañjali nos Yoga Sūtras (III.1 e III.2), a distinção é técnica e progressiva: dhāraṇā é o 'prender a mente em um ponto' (deśabandhaścittasya dhāraṇā), enquanto dhyāna é o 'fluxo ininterrupto de cognição naquele objeto' (tatra pratyayaikatānatā dhyānam). No Śraddhā Yoga, essa base técnica é o suporte para a transição do esforço (pedagógico) para o estado (ontológico).
Dhyāna, por sua vez, não é um estado produzido por esforço cumulativo. Na tradição da Bhagavad Gītā, ele se aproxima muito mais de morada do que de exercício. Dhyāna é o repouso lúcido do ser quando o coração (hṛdaya) ocupa seu lugar no plano do ser. Por isso, ele não se opõe ao pensamento: ele o ordena.
O erro moderno de definir meditação como “não pensar” nasce da confusão entre silêncio e vazio. O silêncio contemplativo não é ausência de inteligência, mas sua maturação.
Bhāvanā e bhāvana: travessia e morada
Essa distinção se esclarece ainda mais na diferença entre bhāvanā (o cultivo, processo e exercício que constitui o caminho) e bhāvana (a habitação, o estado de ser e a morada). Enquanto o primeiro termo denota o esforço causativo do cultivo, o segundo, no Śraddhā Yoga, designa o repouso no real."
A contemplação corresponde a bhāvana. As práticas meditativas pertencem, quando necessárias, ao domínio da bhāvanā. Confundir uma com a outra é transformar a casa em caminho permanente e impedir o repouso no real.
Heartfulness como tradução contemporânea de dhyāna
O termo heartfulness surge, no Śraddhā Yoga, como uma tradução contemporânea e intercultural de dhyāna. Ele não indica sentimentalismo nem introspecção psicológica, mas o reconhecimento do hṛdaya como centro operativo da consciência. Pensar com o coração não significa abdicar da razão, mas devolvê-la ao seu eixo vivo. O Hṛdaya é aqui compreendido não como o epicentro emocional da psique, mas como o 'espaço vasto' (dahara-ākāśa) mencionado nas Upaniṣads, onde a consciência individual se reconhece em sua dimensão universal.
Como ler os textos daqui em diante
A partir desta nota metodológica, o leitor está convidado a uma escuta mais precisa. Sempre que o termo meditação aparecer, ele deverá ser lido em seu sentido pedagógico ou histórico. Quando o texto falar de contemplação, estará apontando para o nível do ser. E quando a tradição exigir rigor, os termos dharāṇā e dhyāna serão empregados sem tradução.
Essa distinção não é um detalhe terminológico. Ela é a chave que permite compreender o Śraddhā Yoga não como técnica espiritual, mas como darśana — no sentido pleno do termo: um sistema de visão e realização do real, onde o conhecimento nasce da confiança lúcida e o coração se revela como órgão de verdade. Darśana primordialmente não é uma "visão teórica", mas uma "visão experiencial" (conforme a raiz dṛś - ver).
Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 2026.
