2017-01-22

O Gurukula

(Casamento, Ambiente e Formação do Critério)

A distinção decisiva na vida doméstica não é arquitetônica, mas ontológica. O lar pode servir apenas como abrigo social — ou erguer-se como campo formativo da consciência.

O Śraddhā Yoga chama este segundo de gurukula: não uma escola formal, nem um espaço de instrução deliberada, mas um ambiente devidamente consagrado onde o critério de assentimento é formado silenciosamente, dia após dia, pela qualidade do gesto, da palavra e do cuidado.

O gurukula não começa com métodos pedagógicos. Ele começa com orientação interior.

2017-01-12

Universidade do Coração: genealogia de um campo de filosofia e cultura sintrópicas

Rio São Francisco — margem da Fazenda Mãe Natureza.
Proponho-me a registrar, com sobriedade e fidelidade, um processo: a lenta maturação de um conjunto de experiências educacionais, ecológicas e culturais que, em determinado momento, recebeu o nome-inspiração “Universidade do Coração”. Não se trata aqui de fundar uma instituição no sentido moderno, nem de reivindicar posse sobre uma expressão; trata-se de reconhecer um eixo: a educação como cultivo de coerência entre vida interior, responsabilidade comunitária e relação reverente com a natureza.

2017-01-08

Sorriso Interior: a Bhagavad Gītā e os germens da transcendência


Tamas evoca a rigidez, a limitação perceptiva, a ignorância e a fixação em formas densas.
Rajas é mais dinâmico, maleável, mas ainda preso ao plano das aparências e das reações emocionais.
Sattva aparece não como uma projeção, mas como a reconciliação tridimensional entre os dois extremos.
A verdade (sattva) é compreendida não por exclusão dos opostos, mas por integração:
a śāttvika jñāna é a única que reconhece a totalidade (BhG 18.20).
Os guṇas, como modos de percepção da realidade, traduzem com suavidade
o contraste entre avidyā (ignorância) e prajñā (sabedoria integrativa).

Comecei a refletir sobre a transcendência (nirvāṇa) da realidade dual (saṃsāra) a partir da minha primeira publicação, Síndrome do Pânico: Aprendendo com a pedagogia da dor (Ed. Litteris: 1998). Esta pequena novela deveria se chamar Sorriso Interior, em homenagem ao poeta simbolista Cruz e Souza, mas, por pressão da editora, saiu com um título que contemplava os temas da moda. Embora o texto não tenha valor literário, ainda o prezo por mapear parte da minha jornada espiritual.

O livro reflete sobre as manifestações concretas da síndrome do pânico, exemplificando aquilo que concluí ser a Lei Universal da transcendência: o contrário do amor não é o ódio, mas a sua ausência — e o principal sintoma dessa ausência é o medo. O medo, invariavelmente, denuncia uma forma de ausência de amor. A via da transcendência estaria, assim, contida no amor mais elevado, que não conhece oposto e brota do  altruísmo biológico, que habita todos nós (como ilustra este nosso vídeo).