(Auto-ocultamento e Ṛta — responsabilidade ontológica no Śraddhā Yoga)
A māyā que realmente importa não é a do cosmos. É a do jīva (o ser individual em situação existencial).
Atribuir a ilusão ao Absoluto sempre foi uma solução confortável: se o mundo é enganoso por natureza, então o erro é estrutural, não pessoal; metafísico, não ético. O Śraddhā Yoga rompe com essa comodidade.
1. Māyā não é erro do real — é estratégia do eu
No Śraddhā Yoga, māyā (auto-ocultamento que desvia o ser do real) não designa uma falha ontológica do mundo, nem um véu lançado pelo Supremo para confundir as criaturas. O real não engana. O real é.
Māyā é o gesto ativo de auto-ocultamento do jīva quando ele se afasta de Ṛta (ordem viva do real, anterior à moral e à lei). Não se trata de ignorância inocente, mas de um mecanismo refinado de defesa: o eu constrói narrativas, racionalizações e sistemas simbólicos para não encarar o desalinhamento entre o que é e o que faz.
A ilusão não nasce da ausência de verdade. Ela nasce da recusa da verdade.
O Mahābhārata oferece a imagem mais radical desse auto-ocultamento na figura de Gandhārī. Ela não era cega; escolheu vendar os olhos em fidelidade ao marido cego. Não se trata de ignorância passiva, mas de um gesto deliberado: uma fidelidade mal orientada que sacrifica a luz em nome de um vínculo. Gandhārī encarna a māyā do jīva em sua forma mais dramática — não como erro imposto pelo destino, mas como decisão do eu que prefere não ver para não ter de agir. O auto-ocultamento é aqui um ato de vontade.
O jīva não se oculta por ignorância, mas porque ver exige mudar. A māyā não protege do erro — protege da transformação. Ela é o gesto pelo qual o eu tenta preservar a si mesmo contra o custo da verdade.
No Śraddhā Yoga, isso implica uma reorientação decisiva da noção de māyā. A ilusão não é atribuída ao cosmos, nem ao jogo do Absoluto, mas ao gesto do jīva que se afasta de Ṛta. Com isso, a ontologia confortável — que absolve o ser humano atribuindo o erro à estrutura do real — é substituída por uma responsabilidade ontológica: não é o mundo que engana, é o eu que se oculta. Māyā deixa de ser princípio do real e passa a ser ato do jīva.
2. Os guṇas como engenharia da ocultação
O jīva não cria māyā do nada.
Ele a fabrica com os próprios materiais do real: os guṇas (qualidades dinâmicas da natureza: clareza, movimento e inércia).
Sattva pode virar autojustificação luminosa.
Rajas pode virar hiperatividade redentora.
Tamas pode virar anestesia existencial.
Assim, a māyā do jīva não se apresenta como mentira grosseira, mas como coerência aparente. O erro se disfarça de sentido; o desvio, de necessidade; a fuga, de destino.
Quanto mais inteligente o jīva, mais sofisticada pode ser sua māyā.
3. A diferença decisiva entre māyā e mistério
Nem tudo o que não compreendemos é māyā.
O real possui mistério — mas o mistério não oculta, ele aprofunda.
Māyā, ao contrário, afasta.
Ela cria distância entre o hṛdaya e o eixo. Onde há mistério verdadeiro, há reverência e escuta; onde há māyā, há ruído, justificativa e dispersão.
O critério é simples:
o mistério convoca à presença;
a māyā legitima a evasão.
4. A raiz da māyā: agir fora de Ṛta
Toda māyā começa quando o jīva age fora de Ṛta — e, em vez de corrigir o gesto, corrige a narrativa. O desalinhamento não é enfrentado; é explicado.
Assim nasce o teatro interior: crenças que consolam, valores que protegem, discursos que absolvem. A māyā não impede a ação. Ela impede o arrependimento lúcido.
5. Por que o Śraddhā Yoga recusa a absolvição metafísica
O Śraddhā Yoga não absolve o jīva atribuindo o erro ao mundo, à sociedade, ao inconsciente ou ao Absoluto. Não porque seja moralista, mas porque é ontologicamente rigoroso.
Onde tudo é ilusão, nada é responsabilidade.
Onde tudo é jogo divino, nada é escolha real.
Ao recolocar a māyā no lugar certo — no gesto do jīva — o Śraddhā Yoga devolve ao ser humano algo precioso e exigente: a dignidade da responsabilidade ontológica.
6. O antídoto da māyā: śraddhā em Ṛta
Na Bhagavad Gītā, a dinâmica da māyā não opera primariamente no manas (mente sensorial e narrativa), mas é superada pela reorientação da buddhi (faculdade de discernimento e decisão). O hṛdaya (centro ontológico do ser) não é operador cognitivo direto, mas o eixo que deixa de ser ocultado quando manas e buddhi se realinham com Ṛta.
A māyā do jīva não se dissolve por análise intelectual, nem por denúncia moral. Ela se dissolve quando manas volta a se orientar por Ṛta, sob a lucidez da buddhi. Nesse realinhamento, o hṛdaya deixa de ser ocultado e volta a funcionar como eixo.
Śraddhā é o oposto da māyā não porque seja crença, mas porque nasce da adesão lúcida ao eixo. Onde há śraddhā viva, o jīva já não precisa se esconder: errar dói, mas esclarece; corrigir custa, mas liberta.
A verdade deixa de ser ameaça. Torna-se orientação.
Confirmação na Bhagavad Gītā (pramāṇa)
A Bhagavad Gītā confirma esse deslocamento quando afirma que aquilo que é noite para os ignorantes é dia para o sábio que vê (BhG 2.69), e que o ser humano é constituído por sua śraddhā (BhG 17.3). Não se trata de crença, mas de alinhamento cognitivo e existencial. Quando os sentidos se recolhem do campo da dispersão, como a tartaruga recolhe seus membros (BhG 2.58), a māyā perde sua função: o real já não precisa ser ocultado.
Parágrafo de Fechamento
A māyā do jīva não é um destino inevitável, mas uma possibilidade sempre aberta — e sempre superável. Ela nasce quando o ser se afasta de Ṛta e se mantém enquanto a mente evita o retorno. Quando a śraddhā é restaurada, a māyā perde sua força: o real já não precisa ser encoberto para que o eu sobreviva.
Nesse ponto, a espiritualidade deixa de acusar o mundo e começa a responder por si mesma. E é somente aí — quando a ilusão começa a cair não por desmascaramento externo, mas por fidelidade interior — que a liberdade deixa de ser promessa e se torna ato.
A dificuldade de comunicação entre aquele que vê e aqueles que permanecem na māyā já era conhecida por Platão, na alegoria da Caverna: quem retorna à luz não é compreendido por aqueles que vivem nas sombras. Não se trata de superioridade moral, mas de diferença dimensional — uma visão em profundidade que se torna incompreensível para quem permanece numa percepção plana e polarizada do real.
O Mahābhārata oferece o contraponto decisivo a Gandhārī na figura de Draupadī. Enquanto uma escolhe vendar os olhos por fidelidade mal orientada, a outra se recusa a silenciar quando o real é violado. Draupadī não se adapta à distorção nem a espiritualiza: ela invoca Ṛta quando o dharma social colapsa. Seu gesto não é revolta emocional, mas recusa ontológica da māyā — a afirmação de que ver exige responder, ainda que o custo seja a ruptura de todas as convenções.
A māyā do jīva não persiste por falta de luz, mas por fidelidades mal orientadas: o eu escolhe não ver quando ver exigiria mudar; e, enquanto essa escolha se mantiver, a verdade não se impõe — ela aguarda.
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Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 2026.
