2026-01-23

Educação sem Hṛdaya

(Universidade, IA e a perda do centro epistêmico)

Nota editorial

Os textos que se seguem formam um pequeno ciclo escrito em continuidade, motivado por uma mesma pergunta: o que significa educar, decidir e responder por si mesmo em um tempo em que a inteligência artificial amplia radicalmente o acesso à informação e à produção de discurso?

Não se trata aqui de rejeitar a técnica, nem de celebrá-la de modo acrítico, mas de interrogar o ponto mais sensível do nosso tempo: a formação do critério, do juízo e da responsabilidade ontológica.

O fio condutor destes ensaios é simples: a técnica amplia meios; apenas o coração educado pode orientar fins.

*** 

A universidade contemporânea vive um paradoxo silencioso: nunca produziu tantos dados, artigos, métricas e avaliações — e nunca esteve tão insegura quanto ao critério pelo qual julga o que realmente importa.

A crise atual não é de método.
É de centro epistêmico.

O método sobrevive.
A técnica avança.
A inteligência artificial amplia capacidades.

Mas a pergunta decisiva permanece sem guardião:
Quem forma o juízo quando o conhecimento se torna automatizável?
1. Quando o método sobrevive ao sentido

O discurso educacional dominante insiste em responder à crise universitária com mais eficiência:
  • melhores indicadores,
  • avaliações mais refinadas,
  • algoritmos de apoio à decisão,
  • plataformas inteligentes de ensino e gestão.
Tudo isso é útil.
Nada disso é suficiente.

O erro estrutural está em supor que aperfeiçoar o método resolve a perda de sentido. Não resolve. Apenas a mascara.

Uma instituição pode ser impecável do ponto de vista técnico e, ainda assim, formar sujeitos incapazes de discernir o que merece ser pensado, defendido ou preservado.

É importante notar que a crítica aqui não é corporativista, nem sindical, nem uma defesa nostálgica da universidade enquanto instituição. Essas respostas pertencem ao plano organizacional. A crise atual é mais funda: ela é ontológica. Não se trata de proteger carreiras, mas de interrogar o lugar a partir do qual o juízo humano é formado. Sem esse centro, nenhuma instituição — antiga ou tecnológica — sabe, de fato, o que está defendendo.

2. A inteligência artificial não cria a crise — ela a revela

A IA não é a origem do problema educacional contemporâneo.
Ela é o espelho implacável de uma crise anterior.

Quando sistemas automatizados passam a escrever, resumir, avaliar, classificar e sugerir caminhos, a pergunta não deveria ser:
“Como competir com a IA?”

Mas sim:
O que ainda exige presença humana não delegável?
Se a universidade não souber responder a isso, ela se tornará apenas um centro de validação técnica de processos cognitivos terceirizados.

A inteligência artificial não inaugura a crise do conhecimento; ela apenas a torna visível. Como um espelho implacável, revela aquilo que já estava ausente: um centro epistêmico capaz de sustentar o juízo. O problema não é que a máquina pense demais — é que o humano desaprendeu onde pensa.

 3. O ponto cego da discussão sobre avaliação

Muito se fala hoje em avaliação formativa, indicadores de impacto, métricas de qualidade e inovação educacional. Mas quase nunca se pergunta:
Avaliação de quê? E a partir de qual eixo?
Avaliar sem um centro ontológico explícito é apenas medir desempenho adaptativo.

Forma-se gente competente, mas não orientada.
Especialistas eficientes, mas não responsáveis.
Profissionais produtivos, mas sem critério de assentimento interior.

4. O sintoma lúcido: o alerta de Silvio Meira

Quando vozes lúcidas do próprio sistema — como Silvio Meira — alertam para o deslocamento do papel das universidades diante da IA, o que aparece não é oposição à tecnologia, mas preocupação com a perda de centralidade formativa.

O alerta é claro:
se a universidade não redefinir o que só ela pode formar, será superada não por máquinas mais inteligentes, mas por sistemas mais rápidos de certificação do vazio.

5. O que está ausente: o hṛdaya como centro epistêmico

No vocabulário do Śraddhā Yoga, chamamos hṛdaya não o domínio das emoções, mas o centro ontológico onde conhecer, sentir e agir se integram.

Sem hṛdaya:
  • conhecimento vira acúmulo,
  • método vira automatismo,
  • ética vira regulação externa,
  • educação vira treinamento.
Com hṛdaya:
  • o saber encontra orientação,
  • a técnica encontra limite,
  • a ação encontra responsabilidade.
📌 A função insubstituível da educação superior não é produzir respostas, mas formar o centro que decide entre respostas possíveis.

Isso nenhuma IA pode fazer por alguém.

6. Educação como formação do juízo — não como entrega de soluções

O futuro da universidade não está em competir com a inteligência artificial naquilo que ela faz melhor.

Está em assumir, sem hesitação, aquilo que ela jamais poderá fazer:
  • formar o critério interior,
  • sustentar a responsabilidade ontológica,
  • educar a capacidade de dizer “não”,
  • ensinar a escutar antes de decidir.
Isso não é romantismo.
É realismo epistêmico.

Romântico é supor que a ampliação técnica supre a ausência de sentido. Realista é reconhecer que nenhuma máquina forma juízo, porque nenhuma máquina habita o hṛdaya.

7. Um divisor de águas silencioso

Estamos diante de um divisor histórico:
  • ou a universidade se torna um ambiente de formação do hṛdaya,
  • ou se reduzirá a um hub técnico de validação algorítmica do conhecimento.
Não se trata de escolher entre tradição e inovação.
Trata-se de restituir o centro sem o qual nenhuma inovação tem direção.

Nota final

A inteligência artificial ampliará tudo o que já somos.
Ela não corrigirá o que não formamos.

Se o coração não for educado,
a inteligência — humana ou artificial — apenas acelerará o desvio.

Haṁsaḥ śāntiḥ śraddhāyāḥ. 🕊️



Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2026.