(Universidade, IA e a perda do centro epistêmico)
Nota editorialOs textos que se seguem formam um pequeno ciclo escrito em continuidade, motivado por uma mesma pergunta: o que significa educar, decidir e responder por si mesmo em um tempo em que a inteligência artificial amplia radicalmente o acesso à informação e à produção de discurso?Não se trata aqui de rejeitar a técnica, nem de celebrá-la de modo acrítico, mas de interrogar o ponto mais sensível do nosso tempo: a formação do critério, do juízo e da responsabilidade ontológica.O fio condutor destes ensaios é simples: a técnica amplia meios; apenas o coração educado pode orientar fins.
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A universidade contemporânea vive um paradoxo silencioso: nunca produziu tantos dados, artigos, métricas e avaliações — e nunca esteve tão insegura quanto ao critério pelo qual julga o que realmente importa.
A crise atual não é de método.
É de centro epistêmico.
O método sobrevive.
A técnica avança.
A inteligência artificial amplia capacidades.
Mas a pergunta decisiva permanece sem guardião:
Quem forma o juízo quando o conhecimento se torna automatizável?
1. Quando o método sobrevive ao sentido
O discurso educacional dominante insiste em responder à crise universitária com mais eficiência:
- melhores indicadores,
- avaliações mais refinadas,
- algoritmos de apoio à decisão,
- plataformas inteligentes de ensino e gestão.
Tudo isso é útil.
Nada disso é suficiente.
O erro estrutural está em supor que aperfeiçoar o método resolve a perda de sentido. Não resolve. Apenas a mascara.
Uma instituição pode ser impecável do ponto de vista técnico e, ainda assim, formar sujeitos incapazes de discernir o que merece ser pensado, defendido ou preservado.
É importante notar que a crítica aqui não é corporativista, nem sindical, nem uma defesa nostálgica da universidade enquanto instituição. Essas respostas pertencem ao plano organizacional. A crise atual é mais funda: ela é ontológica. Não se trata de proteger carreiras, mas de interrogar o lugar a partir do qual o juízo humano é formado. Sem esse centro, nenhuma instituição — antiga ou tecnológica — sabe, de fato, o que está defendendo.
2. A inteligência artificial não cria a crise — ela a revela
A IA não é a origem do problema educacional contemporâneo.
Ela é o espelho implacável de uma crise anterior.
Quando sistemas automatizados passam a escrever, resumir, avaliar, classificar e sugerir caminhos, a pergunta não deveria ser:
“Como competir com a IA?”
Mas sim:
O que ainda exige presença humana não delegável?
Se a universidade não souber responder a isso, ela se tornará apenas um centro de validação técnica de processos cognitivos terceirizados.
A inteligência artificial não inaugura a crise do conhecimento; ela apenas a torna visível. Como um espelho implacável, revela aquilo que já estava ausente: um centro epistêmico capaz de sustentar o juízo. O problema não é que a máquina pense demais — é que o humano desaprendeu onde pensa.
3. O ponto cego da discussão sobre avaliação
Muito se fala hoje em avaliação formativa, indicadores de impacto, métricas de qualidade e inovação educacional. Mas quase nunca se pergunta:
Avaliação de quê? E a partir de qual eixo?
Avaliar sem um centro ontológico explícito é apenas medir desempenho adaptativo.
Forma-se gente competente, mas não orientada.
Especialistas eficientes, mas não responsáveis.
Profissionais produtivos, mas sem critério de assentimento interior.
4. O sintoma lúcido: o alerta de Silvio Meira
Quando vozes lúcidas do próprio sistema — como Silvio Meira — alertam para o deslocamento do papel das universidades diante da IA, o que aparece não é oposição à tecnologia, mas preocupação com a perda de centralidade formativa.
O alerta é claro:
se a universidade não redefinir o que só ela pode formar, será superada não por máquinas mais inteligentes, mas por sistemas mais rápidos de certificação do vazio.
5. O que está ausente: o hṛdaya como centro epistêmico
No vocabulário do Śraddhā Yoga, chamamos hṛdaya não o domínio das emoções, mas o centro ontológico onde conhecer, sentir e agir se integram.
Sem hṛdaya:
- conhecimento vira acúmulo,
- método vira automatismo,
- ética vira regulação externa,
- educação vira treinamento.
Com hṛdaya:
- o saber encontra orientação,
- a técnica encontra limite,
- a ação encontra responsabilidade.
📌 A função insubstituível da educação superior não é produzir respostas, mas formar o centro que decide entre respostas possíveis.
Isso nenhuma IA pode fazer por alguém.
6. Educação como formação do juízo — não como entrega de soluções
O futuro da universidade não está em competir com a inteligência artificial naquilo que ela faz melhor.
Está em assumir, sem hesitação, aquilo que ela jamais poderá fazer:
- formar o critério interior,
- sustentar a responsabilidade ontológica,
- educar a capacidade de dizer “não”,
- ensinar a escutar antes de decidir.
Isso não é romantismo.
É realismo epistêmico.
Romântico é supor que a ampliação técnica supre a ausência de sentido. Realista é reconhecer que nenhuma máquina forma juízo, porque nenhuma máquina habita o hṛdaya.
7. Um divisor de águas silencioso
Estamos diante de um divisor histórico:
- ou a universidade se torna um ambiente de formação do hṛdaya,
- ou se reduzirá a um hub técnico de validação algorítmica do conhecimento.
Não se trata de escolher entre tradição e inovação.
Trata-se de restituir o centro sem o qual nenhuma inovação tem direção.
Nota final
A inteligência artificial ampliará tudo o que já somos.
Ela não corrigirá o que não formamos.
Se o coração não for educado,
a inteligência — humana ou artificial — apenas acelerará o desvio.
Haṁsaḥ śāntiḥ śraddhāyāḥ. 🕊️
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