(Síntese sintrópica e superação do Advaita Vedānta e do Budismo)
A história das filosofias espirituais da Índia pode ser lida, em grande medida, como a história de uma inversão silenciosa: o momento em que o pensar passou a governar o ser, e o conhecer passou a preceder o reconhecer. É nessa inversão — sutil, progressiva, quase imperceptível — que se enraíza a cisão entre os darśanas. Advaita Vedānta e Budismo, cada um à sua maneira, elaboraram sistemas de extraordinária sofisticação intelectual e rigor metodológico; mas ambos compartilham um ponto cego estrutural: não explicam a precedência ontológica do hṛdaya (centro ontológico da consciência; onde o real se reconhece antes de ser pensado). No Śraddhā Yoga, ao contrário, o coração não é metáfora, nem emoção, nem centro psicológico — é o lugar ontológico onde o real se torna evidente antes de se tornar compreensível. O pensar organiza o que o hṛdaya reconhece primeiro. A mente traduz. O coração sabe. Este capítulo nasce da necessidade de tornar explícita essa diferença, não como polêmica, mas como fidelidade ao real.
O que se segue não é uma crítica, nem uma comparação de sistemas. É uma cartografia ontológica — um mapeamento de posições do ser. Uma engenharia espiritual deliberada que reconstrói, passo a passo, o deslocamento do eixo e a sua restauração. Não como técnica, mas como reposicionamento do eixo.
Primeiro, revela-se a inversão — quando a mente assume o trono. Depois, a confusão entre caminho e casa — quando a travessia substitui a morada. Em seguida, o absoluto pensado sem coração. Depois, o caminho percorrido sem chão.
Até que se torne visível o campo onde ser e não-ser já se pertencem, o Śraddhā Yoga se afirme como darśana do coração lúcido e o samvāda (diálogo orientado pelo eixo do ser, não pela disputa de posições) emerja como gesto civilizacional.
Não se trata de refutar tradições, mas de demarcar eixos. Não de corrigir doutrinas, mas de reposicionar a consciência. Não de construir sínteses, mas de revelar o campo onde elas já são desnecessárias.
Aqui, o Śraddhā Yoga assume sua identidade como darśana do coração lúcido e, a partir desse eixo, dialoga, integra e supera — não por síntese dialética, mas por convergência ontológica — as grandes construções do Advaita Vedānta e do Budismo. Não se trata de reconciliar Ser e Não-Ser por negação mútua, mas de revelar o campo onde ambos já se pertencem; não de resolver a contradição, mas de reconhecer o ritmo que a gera. A dialética descreve o movimento do pensamento em direção ao absoluto; a sintropia revela o movimento do absoluto reconhecendo-se no pensamento. É nesse plano — anterior ao conflito e posterior às oposições — que o hṛdaya se impõe como chave.
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Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2026.
