(Um interlúdio sobre centro, técnica e responsabilidade)
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| Três deslocamentos do saber. |
A história do pensamento avança não apenas por sistemas consolidados, mas por insurgências — momentos em que um eixo invisível é deslocado e aquilo que parecia natural revela sua contingência.
O recurso à história aqui não é decorativo nem nostálgico. Ele cumpre uma função crítica: mostrar que toda grande transformação do saber desloca um eixo — e que ignorar esse deslocamento produz ingenuidade ou idolatria. O presente só se torna inteligível quando reconhecido como parte de uma sequência de insurgências.
Vivemos hoje um desses momentos. Para compreendê-lo, vale reconhecer três formas distintas de insurgência, separadas no tempo, mas ligadas por uma mesma pergunta: quem detém o poder de dizer o que conta como saber?
1. A insurgência estrutural: Denis Diderot
No século XVIII, Diderot e os enciclopedistas não foram apenas produtores de conhecimento. Foram desestabilizadores de um monopólio.
A Encyclopédie não pretendia apenas reunir saberes, mas retirar da Igreja e da tradição clerical o controle exclusivo do acesso ao conhecimento. A insurgência foi estrutural: deslocou a autoridade do sagrado institucional para a razão pública.
O gesto era libertador — e necessário.
Mas trazia um risco latente: confundir acesso à informação com formação do juízo.
2. A insurgência tecnológica: a inteligência artificial
A inteligência artificial realiza hoje um deslocamento ainda mais radical.
Ela não apenas democratiza o acesso ao saber: ela automatiza operações cognitivas antes consideradas exclusivas da mente humana — escrever, resumir, avaliar, sugerir, decidir caminhos prováveis.
Aqui, o poder não se desloca de uma instituição para outra. Ele se desloca do humano para o sistema técnico.
A pergunta já não é “quem controla o saber?”, mas outra, mais decisiva:
O que ainda exige presença humana quando o saber se torna operacional?
Três insurgências, três deslocamentos:
- Diderot desloca a autoridade do saber.
- A inteligência artificial desloca a execução do saber.
- O Śraddhā Yoga recoloca a responsabilidade pelo sentido do saber.
3. A insurgência ontológica: o Śraddhā Yoga
É neste ponto que o Śraddhā Yoga se posiciona — não como reação nostálgica, nem como rejeição da técnica, mas como insurgência ontológica.
Ele não disputa dados.
Não compete em eficiência.
Não promete respostas melhores.
Ele desloca a pergunta de fundo:
Quem decide quando decidir é possível?Quem sustenta o centro quando os meios se multiplicam?
A insurgência aqui não é contra instituições nem contra máquinas. É contra a perda do centro epistêmico do ser humano.
4. Três deslocamentos, um fio comum
- O primeiro deslocamento libertou o acesso.
- O segundo acelerou a execução.
- O terceiro recoloca a pergunta que os dois anteriores não puderam responder: quem responde pelo sentido?
Não há contradição entre esses gestos. Há uma sequência histórica.
Mas a sequência só se completa quando se reconhece que:
📌 nem o acesso, nem a automação, nem a performance cognitiva substituem a formação do hṛdaya (o centro epistêmico do humano, onde conhecer, sentir e agir se integram).
5. Um interlúdio — e um aviso
Toda insurgência que ignora a formação do centro produz libertação parcial e alienação futura.
O Iluminismo libertou — mas também fragmentou. A técnica acelera — mas também desorienta. Sem um eixo ontológico, toda vitória estrutural ou tecnológica cobra seu preço.
Chamar o Śraddhā Yoga de insurgência ontológica não é metáfora bélica. Trata-se de um gesto interior: a recusa em delegar o centro epistêmico do humano — o hṛdaya — a sistemas, instituições ou automatismos, por mais sofisticados que sejam.
Fecho
O futuro não pertence à razão ilustrada isolada.
Nem à inteligência artificial autônoma.
Pertence àquele que souber habitar o centro,
usar os meios sem ser usado por eles,
e responder pelo sentido antes de responder por resultados.
Essa é a insurgência silenciosa do nosso tempo.
Haṁsaḥ śāntiḥ śraddhāyāḥ. 🕊️
