2026-01-23

Diderot, a IA e as Três Insurgências

 (Um interlúdio sobre centro, técnica e responsabilidade)
Três deslocamentos do saber.
A história do pensamento avança não apenas por sistemas consolidados, mas por insurgências — momentos em que um eixo invisível é deslocado e aquilo que parecia natural revela sua contingência.

O recurso à história aqui não é decorativo nem nostálgico. Ele cumpre uma função crítica: mostrar que toda grande transformação do saber desloca um eixo — e que ignorar esse deslocamento produz ingenuidade ou idolatria. O presente só se torna inteligível quando reconhecido como parte de uma sequência de insurgências.

Vivemos hoje um desses momentos. Para compreendê-lo, vale reconhecer três formas distintas de insurgência, separadas no tempo, mas ligadas por uma mesma pergunta: quem detém o poder de dizer o que conta como saber?

1. A insurgência estrutural: Denis Diderot

No século XVIII, Diderot e os enciclopedistas não foram apenas produtores de conhecimento. Foram desestabilizadores de um monopólio.

A Encyclopédie não pretendia apenas reunir saberes, mas retirar da Igreja e da tradição clerical o controle exclusivo do acesso ao conhecimento. A insurgência foi estrutural: deslocou a autoridade do sagrado institucional para a razão pública.

O gesto era libertador — e necessário.
Mas trazia um risco latente: confundir acesso à informação com formação do juízo.

2. A insurgência tecnológica: a inteligência artificial

A inteligência artificial realiza hoje um deslocamento ainda mais radical.

Ela não apenas democratiza o acesso ao saber: ela automatiza operações cognitivas antes consideradas exclusivas da mente humana — escrever, resumir, avaliar, sugerir, decidir caminhos prováveis.

Aqui, o poder não se desloca de uma instituição para outra. Ele se desloca do humano para o sistema técnico.

A pergunta já não é “quem controla o saber?”, mas outra, mais decisiva:
O que ainda exige presença humana quando o saber se torna operacional?
 Três insurgências, três deslocamentos:
  • Diderot desloca a autoridade do saber.
  • A inteligência artificial desloca a execução do saber.
  • O Śraddhā Yoga recoloca a responsabilidade pelo sentido do saber.
3. A insurgência ontológica: o Śraddhā Yoga

É neste ponto que o Śraddhā Yoga se posiciona — não como reação nostálgica, nem como rejeição da técnica, mas como insurgência ontológica.

Ele não disputa dados.
Não compete em eficiência.
Não promete respostas melhores.

Ele desloca a pergunta de fundo:
Quem decide quando decidir é possível?
Quem sustenta o centro quando os meios se multiplicam?
A insurgência aqui não é contra instituições nem contra máquinas. É contra a perda do centro epistêmico do ser humano.

4. Três deslocamentos, um fio comum
  • O primeiro deslocamento libertou o acesso.
  • O segundo acelerou a execução.
  • O terceiro recoloca a pergunta que os dois anteriores não puderam responder: quem responde pelo sentido?
Não há contradição entre esses gestos. Há uma sequência histórica.

Mas a sequência só se completa quando se reconhece que:

📌 nem o acesso, nem a automação, nem a performance cognitiva substituem a formação do hṛdaya (o centro epistêmico do humano, onde conhecer, sentir e agir se integram).

5. Um interlúdio — e um aviso

Toda insurgência que ignora a formação do centro produz libertação parcial e alienação futura.

O Iluminismo libertou — mas também fragmentou. A técnica acelera — mas também desorienta. Sem um eixo ontológico, toda vitória estrutural ou tecnológica cobra seu preço.

Chamar o Śraddhā Yoga de insurgência ontológica não é metáfora bélica. Trata-se de um gesto interior: a recusa em delegar o centro epistêmico do humano — o hṛdaya — a sistemas, instituições ou automatismos, por mais sofisticados que sejam.

Fecho

O futuro não pertence à razão ilustrada isolada.
Nem à inteligência artificial autônoma.

Pertence àquele que souber habitar o centro,
usar os meios sem ser usado por eles,
e responder pelo sentido antes de responder por resultados.

Essa é a insurgência silenciosa do nosso tempo.

Haṁsaḥ śāntiḥ śraddhāyāḥ. 🕊️



Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2026.