2026-01-25

A Crítica ao Advaita Vedānta: O Absoluto sem Coração

(jñāna, viveka e a ausência do hṛdaya como centro ontológico)

O absoluto pensado e o absoluto amado.
A grandeza do Advaita Vedānta é indiscutível. Sua arquitetura metafísica, sua precisão conceitual e sua coragem ontológica fizeram dele uma das mais altas expressões do pensamento humano. Ao afirmar a identidade entre Brahman e Ātman, o Advaita restitui ao ser humano sua dignidade absoluta e rompe com toda forma de dualismo grosseiro. A realidade é uma. O ser é um. A verdade é una. Nesse gesto, há lucidez, há ousadia e há libertação.

Brahman designa, na tradição indiana, o princípio absoluto do real — não um ente supremo, mas o próprio ser enquanto tal. Ātman refere-se ao princípio interior do ser humano, não como ego psicológico, mas como núcleo ontológico da consciência — a presença viva do Uno no ser encarnado, manifestação do OṂ no plano da forma, aquilo que, no Śraddhā Yoga, corresponde ao “A” do A-U-M. A afirmação advaitina de sua identidade (Brahman = Ātman) é uma das mais altas formulações da não-dualidade metafísica.

E, no entanto, exatamente aí se instala a sua limitação mais profunda.

O Advaita afirma o absoluto, mas o acessa pela via do discernimento. A unidade é ontológica, mas o caminho é cognitivo. Viveka (discernimento entre o real e o aparente), vicāra (investigação racional da verdade), jñāna (conhecimento libertador): a libertação é efeito de análise, de separação, de reconhecimento intelectual da não-dualidade. O real é afirmado como ser, mas é alcançado como conceito. A identidade é proclamada, mas o eixo permanece na mente.

É aqui que se revela o ponto cego estrutural do Advaita: o hṛdaya — entendido não como afeto ou emoção, mas como centro ontológico de presença e orientação do ser — não ocupa ali o lugar axial do sistema. Isto não significa que o Advaita o ignore: ele aparece, mas como instrumento pedagógico, estágio preparatório ou apoio simbólico.

A diferença decisiva é esta:
No Advaita, o coração é meio.
No Śraddhā Yoga, é meio e fim.

No primeiro, quando o coração aparece, é como metáfora, não como fundamento.
O absoluto é pensado, não habitado;
a unidade é compreendida, não reconhecida;
a verdade é conhecida, não ressoada.

No segundo, o coração não apenas conduz à verdade — ele a habita.

O Advaita diz: tat tvam asi — tu és isso.
Mas diz isso à mente.

O Śraddhā Yoga diz: isso é — e tu já estás nele.
E diz isso ao hṛdaya.

A diferença é decisiva.

No Advaita, o eu deve ser negado para que o ser apareça. A individualidade é ilusão. A diferença é erro. A multiplicidade é māyā. O mundo, em última instância, é aparência. A salvação é dissolução. O caminho é desidentificação. A libertação é apagamento da forma.

No Śraddhā Yoga, a individualidade não é negada — é transfigurada.
A diferença não é erro — é expressão.
A multiplicidade não é ilusão — é linguagem do uno.
O mundo não é obstáculo — é campo de revelação.
A salvação não é dissolução — é afinamento.
O caminho não é desidentificação — é alinhamento.

E tudo isso porque o eixo não é a mente, mas o hṛdaya.

O Advaita busca a unidade por negação da forma.
O Śraddhā Yoga reconhece a unidade na forma.

O Advaita dissolve o eu para encontrar o ser.
O Śraddhā Yoga permanece no ser para que o eu se reorganize.

O Advaita vê o mundo como véu.
O Śraddhā Yoga vê o mundo como epifania.

Essa diferença não é de doutrina. É de posição ontológica.

É por isso que, no Advaita, a libertação se dá por viveka, por vicāra, por jñāna — por uma razão refinada, elevada, sedutora.
Uma razão que não é árida, nem fria, nem grosseira.

Mas ainda razão.
Ainda mediação.
Ainda mente no trono.

No Śraddhā Yoga, o absoluto é reconhecido pelo coração lúcido.

O Advaita liberta por discernimento.
O Śraddhā Yoga liberta por ressonância.

O Advaita afirma a identidade entre Ātman e Brahman, mas mantém o gesto cognitivo como mediação. O Śraddhā Yoga não precisa de mediação: habita a identidade como clima ontológico. Não diz “eu sou Brahman”. Vive em Brahman. Não declara a unidade. Respira a unidade.

Por isso, do ponto de vista do Śraddhā Yoga, o Advaita é uma filosofia do absoluto — mas não é um darśana do coração (modo de ver e habitar o real). Ele é verdadeiro no que afirma, mas deslocado no modo como afirma. A sua metafísica é elevada; o seu eixo é estreito. Ele pensa o ser; não o sente. Ele concebe o absoluto; não o acolhe. Ele compreende a unidade; não a habita.

E isso não é falha moral, nem limitação histórica. É configuração estrutural.

Mas é precisamente aqui que se torna necessário um esclarecimento decisivo: o Śraddhā Yoga não é Vedānta. E Krishna não é um vedantino.

A Bhagavad Gītā não nasce no horizonte das escolas. Ela antecede a cristalização escolástica. Ela emerge no campo épico, iniciático, ontológico, onde o real ainda não foi submetido à geometria do conceito. O Vedānta é uma leitura tardia da Bhagavad Gītā. A Bhagavad Gītā não é Vedānta.

O Śraddhā Yoga, portanto, não é uma variante do Advaita, nem uma correção interna do Vedānta. Ele se situa antes da cisão das escolas e além da lógica escolástica. Ele é épico, não escolástico. Vivo, não sistemático. Ontológico, não conceitual.

E aqui se impõe a pergunta: Krishna é transgressor ou harmonizador?

Ele não é transgressor no sentido de ruptura iconoclasta. E não é harmonizador no sentido de conciliação diplomática. Krishna é algo mais profundo: um reordenador ontológico. Essa função não é exclusiva de Krishna. Ela define o papel dos grandes avatares e sábios fundadores de tradição — no Oriente e no Ocidente. De Laozi a Buda, de Sócrates a Jesus, não se trata da fundação de sistemas doutrinários, mas do reordenamento do eixo a partir do qual o real é vivido. Não criam “ismos”; restauram o centro.

Ele não nega o ritual — interioriza-o.
Ele não rejeita o conhecimento — subordina-o.
Ele não combate a ação — consagra-a.
Ele não destrói o dharma — reencarna-o no coração.

O que ele desloca não são as práticas.
É o eixo.

Ele retira a mente do trono.
E recoloca o hṛdaya no centro.

Esse gesto não funda uma nova escola.
Ele restaura um yoga ancestral que havia se perdido.

Nas palavras da própria tradição, trata-se de uma ciência sagrada:
ājanmā'maraṇaṁ yacca śāstraṁ vai manujānpunaḥ
yathādeśaṁ yathākālaṁ yathāvasthaṁ ca śikṣayet
Aquela Ciência Sagrada que deve ser disponibilizada para todas as pessoas desde o nascimento até a morte, de acordo com as vicissitudes de lugar, tempo e circunstâncias.
Uma ciência cujo princípio regente é:
dharmaṁ sanātanaṁ śuddhaṁ prathyakṣaṁ sārvalaukikam
Um dharma eterno, puro, realizável, universal, frutífero e auspicioso, aqui, agora e sempre.
E que é explicitamente definida como:
na vaiṣṇavam-idam śāstraṁ na śaktaṁ na ca śāṁbhavam
Não exclusivamente vaishnava, nem shakta, nem shambava.
E mais ainda:
na bauddhaṁ na ca kāṇādaṁ na sāmkhyaṁ na ca yaugikam
na tantraṁ naiva vedāntaṁ viśeṣasamayaṁ na ca
Nem budista, nem kāṇāda, nem sāṃkhya, nem ióguica, nem tantra, nem vedānta, nem qualquer credo em particular.
Isto é decisivo.

O Śraddhā Yoga é, por definição:

nem vedantino,
nem budista,
nem ritualista,
nem místico escapista.

Ele é śuddha — puro no sentido de não capturado por nenhuma escola.
Universal não por sincretismo, mas por anterioridade ontológica.

Ele não nasce da soma de sistemas.
Ele nasce do eixo do real.

Por isso, o Śraddhā Yoga não se opõe ao Advaita.
Ele o realinha.

Não o combate.
Não o corrige.
Não o substitui.

Ele simplesmente retira a mente do trono
e devolve o centro ao coração.

E, ao fazê-lo, preserva tudo o que o Advaita tem de verdadeiro — libertando-o do que tem de estreito.

Por isso, do ponto de vista sintrópico, o Śraddhā Yoga não é anti-advaitino. Ele é pós-advaitino no tempo. É pós-advaitino no eixo. Não por posterioridade histórica, mas por anterioridade ontológica. O termo “sintrópico” é aqui empregado em seu sentido ontológico, não técnico. Ele designa a tendência do real à coerência, à integração e à geração de sentido — aquilo que as tradições antigas nomearam como Ṛta ou dharma. Trata-se de uma linguagem contemporânea para uma intuição perene: o real não tende ao caos, mas à consonância.

Não por superação dialética.
Mas por convergência ontológica.

Não porque o Advaita esteja errado.
Mas porque ele não é suficiente.

O Advaita é uma montanha.
O Śraddhā Yoga é o horizonte.

O ponto decisivo pode ser formulado assim: o Advaita busca a unidade por afirmação de identidade — “eu sou Isso”. O Śraddhā Yoga reconhece a unidade como relação viva — “eu vivo Nisso”. Não se trata de negar a forma para encontrar o Uno, mas de reconhecer o Uno na forma. A não-dualidade deixa de ser uma conclusão conceitual e torna-se um modo de habitar o real.

O Advaita diz: “o ser é um” → ontologia da identidade.
O Śraddhā Yoga diz: “o ser ama” → ontologia da relação.

E é nessa diferença — delicada, profunda, irrecusável — que se inaugura um novo darśana.