2026-01-23

Por que a IA não decide por mim


Uso inteligência artificial.
Com frequência.
Com gratidão.

Ela escreve, organiza, sintetiza, sugere.
Amplia minha visão.
Acelera processos.
Reduz ruído.

Mas há algo que ela não faz por mim —
e nem deve fazer.

Ela não decide.
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Decidir não é escolher a melhor resposta

Escolher a resposta mais provável, mais eficiente ou mais coerente com padrões prévios não é decidir.

Decidir envolve risco.
Envolve perda.
Envolve responsabilidade.

Toda decisão verdadeira carrega um custo ontológico:
algo poderia ter sido — e não será.

A IA não paga esse preço.
Eu pago.
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Decidir exige um centro

Para decidir, é preciso um eixo interno que sustente o peso da escolha.

Chamo esse eixo de coração —
não como emoção, mas como centro (hṛdaya)
onde pensar, sentir e agir se reconhecem como um só gesto.

Sem esse centro, a decisão vira cálculo.
Com ele, a decisão vira compromisso.

A IA calcula.
O coração responde.
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Quando delegamos demais, algo se perde

Delegar tarefas é saudável.
Delegar critérios é perigoso.

Quando terceirizamos demais o juízo,
começamos a viver por sugestões,
tendências,
probabilidades.

A vida se torna eficiente —
e estranhamente vazia.

Não porque faltem opções,
mas porque falta alguém que responda por elas.
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A decisão é sempre pessoal — mesmo quando erramos

Prefiro errar por decisão própria
do que acertar por delegação cega.

Porque o erro assumido ensina.
E o acerto delegado anestesia.

A maturidade não está em nunca errar,
mas em não fugir do lugar onde a decisão acontece.
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A IA me ajuda a pensar.

Eu continuo responsável por viver.

Esse é o pacto.

Uso a técnica.
Honro o método.
Aproveito os meios.

Mas quando chega a hora de dizer “sim” ou “não”,
quando algo realmente importa,
quando há risco, vínculo ou consequência,

sou eu que permaneço diante da escolha.
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Fecho

A inteligência artificial ampliará nossas capacidades.
Ela não deve substituir nossa presença.

Porque uma vida não se vive por otimização.
Vive-se por fidelidade.

E fidelidade não se terceiriza.

Haṁsaḥ śāntiḥ śraddhāyāḥ. 🕊️

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Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2026.