2026-01-21

Nota Metodológica — Śraddhā: A Pedra Angular de Luz

(Por que o Śraddhā Yoga não é fideísmo nem cientificismo)
Śraddhā não é um conteúdo acrescentado ao real,
mas o ponto de sustentação silencioso que torna possível reconhecer o que é verdadeiro.


Toda filosofia que afirma um critério de verdade precisa, mais cedo ou mais tarde, esclarecer como sabe o que diz. Quando essa exigência é evitada, nasce o dogma; quando é reduzida exclusivamente ao método científico, nasce o reducionismo.

O Śraddhā Yoga se recusa a ambos.

Esta nota existe para situar metodologicamente o lugar da śraddhā (confiança lúcida que antecede crença e conceito) e do hṛdaya (centro ontológico de assentimento ao real), e para explicitar por que o darśana que aqui se apresenta não é nem fideísta, nem cientificista, nem metafísico no sentido inflacionado do termo.

1. O falso dilema moderno: fé ou ciência

O pensamento moderno costuma operar a partir de um dilema implícito: ou a verdade é objeto de crença (religião, fé, subjetividade), ou é objeto de verificação (ciência, método, objetividade).

Tudo o que não se enquadra claramente em um desses polos é tratado como opinião, metáfora, ou ilusão bem-intencionada.

O Śraddhā Yoga não aceita esse dilema, porque ele próprio é produto de uma epistemologia historicamente empobrecida, que perdeu de vista o problema do fundamento não inferencial do saber.

2. Por que o Śraddhā Yoga não é fideísmo
(śraddhā quaerens intellectum)

Fideísmo é a posição segundo a qual a verdade se sustenta independentemente de critérios, por adesão subjetiva, autoridade revelada ou crença incondicional.

O Śraddhā Yoga não opera assim.

Ele não pede crença.
Não exige submissão intelectual.
Não funda a verdade em autoridade externa.
Não substitui crítica por devoção.

A śraddhā, no seu sentido próprio, não é fé cega, mas confiança lúcida — um assentimento que emerge quando o hṛdaya reconhece consonância com o real. Onde não há reconhecimento, a śraddhā não se impõe. Onde há dissonância, ela recua.

Nesse sentido, o método do Śraddhā Yoga pode ser descrito com precisão como śraddhā quaerens intellectumnão a fé que dispensa o pensamento, mas o assentimento que convoca o intelecto a compreender aquilo que já se impôs como real sem violência interior.

Isso basta para distingui-lo radicalmente do fideísmo.

3. Por que o Śraddhā Yoga não é cientificismo

Cientificismo é a posição segundo a qual todo critério de verdade deve ser redutível ao método científico, à mensuração, à modelização ou à prova empírica.

O Śraddhā Yoga não nega a ciência — mas nega sua absolutização epistemológica. A ciência opera no domínio do objeto, depende de mediação instrumental, formula hipóteses provisórias, descreve estruturas do mundo. O hṛdaya, ao contrário: não é objeto, não é mensurável, não é hipótese, não descreve o mundo. Ele é a condição de possibilidade da orientação no mundo.

Exigir que o hṛdaya seja validado cientificamente é cometer um erro de categoria — semelhante a exigir que a lógica seja provada por um experimento, ou que o sentido seja pesado numa balança.

4. Certeza não proposicional e o limite do dizer

É aqui que o diálogo com Ludwig Wittgenstein se torna instrutivo — especialmente em On CertaintyWittgenstein mostra que nem tudo o que sustenta o conhecimento é conhecido como proposição, nem toda certeza é resultado de prova, há formas de certeza que funcionam como solo, não como conclusão.

Exemplos simples:
  • não duvidamos seriamente de que o mundo existe,
  • não testamos a todo momento se temos um corpo,
  • não demonstramos logicamente que a linguagem significa algo.
Essas certezas não são crenças arbitrárias — são condições de possibilidade do próprio duvidar

O hṛdaya ocupa um lugar análogo, mas não idênticoEle não formula proposições verdadeiras; ele sustenta o campo no qual a verdade pode ou não fazer sentido.

A diferença decisiva é esta: as certezas wittgensteinianas operam universalmente como solo tácito; o hṛdaya, embora seja condição ontológica universal, não é universalmente reconhecidoSeu reconhecimento é realizativo, não automático.

5. Assentimento, não justificação

O erro recorrente das críticas espiritualistas e cientificistas é exigir do hṛdaya aquilo que só faz sentido exigir de uma teoria: justificação discursiva.

Mas o hṛdaya não justificaEle assenteEsse assentimento não é irracional, mas pré-racional:
  • anterior à crença,
  • anterior à prova,
  • anterior à negação.
Por isso, ele não compete com a razão. Ele a antecede e a orienta.

Toda fundação não inferencial parece circular do ponto de vista inferencial. Isso não é um defeito do Śraddhā Yoga, mas um traço estrutural de qualquer investigação honesta do fundamento do saber.

6. Fenomenologia do assentimento e método do Śraddhā Yoga

O método do Śraddhā Yoga não é dedutivo, indutivo, nem revelatório no sentido dogmático. Ele é fenomenológico-ontológico, no sentido rigoroso do termo.

Nesse ponto, ele dialoga implicitamente com a epoché e a consciência de fundo em Edmund Husserl — não como método formal, mas como gesto existencial de suspensão — e com a noção de auto-afecção da vida em Michel Henry.

O hṛdaya não é objeto da consciência, mas o lugar onde a consciência se reconhece como já afetada pelo real, antes de qualquer tematização.

Metodologicamente, o Śraddhā Yoga:
  • parte da experiência do assentimento e do recuo,
  • observa seus efeitos na ação,
  • verifica sua capacidade de reduzir violência, ilusão e fragmentação no próprio sujeito que investiga,
  • e mantém-se aberto à retração sempre que o real não sustenta o gesto.

Onde isso não ocorre, não há śraddhā, apenas crença.

Assim, o método do Śraddhā Yoga pode ser compreendido como uma fenomenologia realizativa do assentimento: um exercício contínuo de suspensão (epoché viva), escuta do fundo não tematizado da experiência, e atenção à auto-afecção (o modo como a vida se manifesta a si mesma, sem mediação representacional, antes de qualquer objetivação ou visibilidade exterior) pela qual o real se impõe ou se retira antes de qualquer juízo.

7. Conclusão metodológica

O Śraddhā Yoga afirma, sem ambiguidade: não se trata de acreditar, não se trata de provar, não se trata de explicar o real. Trata-se de habitar o ponto onde o real deixa de ser discutido e começa a ser respeitado.

Esse respeito não é adesão subjetiva, mas reconhecimento de limite: o ponto em que a razão deixa de disputar o real e passa a responder por ele. Esse ponto não é místico, nem científico, nem dogmático. Ele é ontológico.

E é por isso que o Śraddhā Yoga pode sustentar, com serenidade, tanto a crítica moderna quanto a tradição espiritual — sem se reduzir a nenhuma delas.


Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2026.