(Por que o Śraddhā Yoga não é fideísmo nem cientificismo)
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| Śraddhā não é um conteúdo acrescentado ao real, mas o ponto de sustentação silencioso que torna possível reconhecer o que é verdadeiro. |
Toda filosofia que afirma um critério de verdade precisa, mais cedo ou mais tarde, esclarecer como sabe o que diz. Quando essa exigência é evitada, nasce o dogma; quando é reduzida exclusivamente ao método científico, nasce o reducionismo.
Esta nota existe para situar metodologicamente o lugar da śraddhā (confiança lúcida que antecede crença e conceito) e do hṛdaya (centro ontológico de assentimento ao real), e para explicitar por que o darśana que aqui se apresenta não é nem fideísta, nem cientificista, nem metafísico no sentido inflacionado do termo.
1. O falso dilema moderno: fé ou ciência
O pensamento moderno costuma operar a partir de um dilema implícito: ou a verdade é objeto de crença (religião, fé, subjetividade), ou é objeto de verificação (ciência, método, objetividade).
Tudo o que não se enquadra claramente em um desses polos é tratado como opinião, metáfora, ou ilusão bem-intencionada.
O Śraddhā Yoga não aceita esse dilema, porque ele próprio é produto de uma epistemologia historicamente empobrecida, que perdeu de vista o problema do fundamento não inferencial do saber.
2. Por que o Śraddhā Yoga não é fideísmo
(śraddhā quaerens intellectum)
Fideísmo é a posição segundo a qual a verdade se sustenta independentemente de critérios, por adesão subjetiva, autoridade revelada ou crença incondicional.
O Śraddhā Yoga não opera assim.
Ele não pede crença.
Não exige submissão intelectual.
Não funda a verdade em autoridade externa.
Não substitui crítica por devoção.
A śraddhā, no seu sentido próprio, não é fé cega, mas confiança lúcida — um assentimento que emerge quando o hṛdaya reconhece consonância com o real. Onde não há reconhecimento, a śraddhā não se impõe. Onde há dissonância, ela recua.
Nesse sentido, o método do Śraddhā Yoga pode ser descrito com precisão como śraddhā quaerens intellectum: não a fé que dispensa o pensamento, mas o assentimento que convoca o intelecto a compreender aquilo que já se impôs como real sem violência interior.
Isso basta para distingui-lo radicalmente do fideísmo.
3. Por que o Śraddhā Yoga não é cientificismo
Cientificismo é a posição segundo a qual todo critério de verdade deve ser redutível ao método científico, à mensuração, à modelização ou à prova empírica.
O Śraddhā Yoga não nega a ciência — mas nega sua absolutização epistemológica. A ciência opera no domínio do objeto, depende de mediação instrumental, formula hipóteses provisórias, descreve estruturas do mundo. O hṛdaya, ao contrário: não é objeto, não é mensurável, não é hipótese, não descreve o mundo. Ele é a condição de possibilidade da orientação no mundo.
Exigir que o hṛdaya seja validado cientificamente é cometer um erro de categoria — semelhante a exigir que a lógica seja provada por um experimento, ou que o sentido seja pesado numa balança.
4. Certeza não proposicional e o limite do dizer
É aqui que o diálogo com Ludwig Wittgenstein se torna instrutivo — especialmente em On Certainty. Wittgenstein mostra que nem tudo o que sustenta o conhecimento é conhecido como proposição, nem toda certeza é resultado de prova, há formas de certeza que funcionam como solo, não como conclusão.
Exemplos simples:
- não duvidamos seriamente de que o mundo existe,
- não testamos a todo momento se temos um corpo,
- não demonstramos logicamente que a linguagem significa algo.
Essas certezas não são crenças arbitrárias — são condições de possibilidade do próprio duvidar.
O hṛdaya ocupa um lugar análogo, mas não idêntico. Ele não formula proposições verdadeiras; ele sustenta o campo no qual a verdade pode ou não fazer sentido.
A diferença decisiva é esta: as certezas wittgensteinianas operam universalmente como solo tácito; o hṛdaya, embora seja condição ontológica universal, não é universalmente reconhecido. Seu reconhecimento é realizativo, não automático.
5. Assentimento, não justificação
O erro recorrente das críticas espiritualistas e cientificistas é exigir do hṛdaya aquilo que só faz sentido exigir de uma teoria: justificação discursiva.
Mas o hṛdaya não justifica. Ele assente. Esse assentimento não é irracional, mas pré-racional:
- anterior à crença,
- anterior à prova,
- anterior à negação.
Por isso, ele não compete com a razão. Ele a antecede e a orienta.
Toda fundação não inferencial parece circular do ponto de vista inferencial. Isso não é um defeito do Śraddhā Yoga, mas um traço estrutural de qualquer investigação honesta do fundamento do saber.
6. Fenomenologia do assentimento e método do Śraddhā Yoga
O método do Śraddhā Yoga não é dedutivo, indutivo, nem revelatório no sentido dogmático. Ele é fenomenológico-ontológico, no sentido rigoroso do termo.
Nesse ponto, ele dialoga implicitamente com a epoché e a consciência de fundo em Edmund Husserl — não como método formal, mas como gesto existencial de suspensão — e com a noção de auto-afecção da vida em Michel Henry.
O hṛdaya não é objeto da consciência, mas o lugar onde a consciência se reconhece como já afetada pelo real, antes de qualquer tematização.
Metodologicamente, o Śraddhā Yoga:
- parte da experiência do assentimento e do recuo,
- observa seus efeitos na ação,
- verifica sua capacidade de reduzir violência, ilusão e fragmentação no próprio sujeito que investiga,
- e mantém-se aberto à retração sempre que o real não sustenta o gesto.
Onde isso não ocorre, não há śraddhā, apenas crença.
Assim, o método do Śraddhā Yoga pode ser compreendido como uma fenomenologia realizativa do assentimento: um exercício contínuo de suspensão (epoché viva), escuta do fundo não tematizado da experiência, e atenção à auto-afecção (o modo como a vida se manifesta a si mesma, sem mediação representacional, antes de qualquer objetivação ou visibilidade exterior) pela qual o real se impõe ou se retira antes de qualquer juízo.
7. Conclusão metodológica
O Śraddhā Yoga afirma, sem ambiguidade: não se trata de acreditar, não se trata de provar, não se trata de explicar o real. Trata-se de habitar o ponto onde o real deixa de ser discutido e começa a ser respeitado.
Esse respeito não é adesão subjetiva, mas reconhecimento de limite: o ponto em que a razão deixa de disputar o real e passa a responder por ele. Esse ponto não é místico, nem científico, nem dogmático. Ele é ontológico.
E é por isso que o Śraddhā Yoga pode sustentar, com serenidade, tanto a crítica moderna quanto a tradição espiritual — sem se reduzir a nenhuma delas.
