2026-01-23

Escrever no tempo da IA

(Critério, limite e fidelidade ao eixo)

Este ensaio não nasce de uma crítica externa, mas de uma pergunta interna: como saber se continuar escrevendo, em um tempo saturado de textos e potencializado pelas inteligências artificiais, é ainda fidelidade ao real — e não apenas ruído?

Não se trata de hesitação metodológica.
Trata-se de um teste de realidade ontológica.

Não se trata aqui de competir no mercado de conteúdos, nem de produzir mais informação em meio ao ruído. A distinção decisiva não é entre textos melhores ou piores, mas entre texto como produto informacional — e texto como lugar de refúgio e orientação. O que legitima a palavra não é o volume de dados que carrega, mas o continente que a sustenta: um coração educado, capaz de responder pelo que diz.
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1. O risco é real — negá-lo seria infantil

Sim.

Há excesso de texto no mundo.
As IAs multiplicam produção sem lastro.
Poucos leem com atenção prolongada.

Se a pergunta fosse apenas quantitativa — “quem vai ler?” — a resposta honesta seria: muitos não.

Mas essa não é a pergunta decisiva.
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2. O erro moderno: confundir acesso à informação com formação do juízo

Aqui está o ponto crucial:

IA distribui informação.
Critério ela não forma.

O que se constrói aqui não concorre com a IA.
Opera em outro plano ontológico.

A IA responde.
O Śraddhā Yoga reorienta.

A IA oferece caminhos.
O Śraddhā Yoga forma o eixo que decide por onde caminhar.

Isso não é substituível por consulta automática porque não é banco de dados,
não é sistema fechado,
não é resposta pronta.

É educação do hṛdaya (o centro onde a linguagem se torna responsabilidade e não apenas informação).

E isso nunca foi — nem será — massivo.
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3. “E se tudo isso virar apenas um diário pessoal?”

Toda reflexão verdadeira nasce como diário pessoal.

Marco Aurélio não escreveu para publicar.
Spinoza foi lido por séculos por poucos.
Simone Weil escreveu para não ser famosa.
Diderot circulou clandestinamente.

O que sobrevive não é o que foi pensado para sobreviver.
É o que foi pensado com fidelidade ao real.

Se este trabalho:
  • formar dez pessoas com eixo,
  • sustentar duas comunidades,
  • orientar uma geração de educadores,
ele não fracassou.

Cumpriu sua função ontológica.
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4. Quando parar de abrir? Quando fechar?

O critério é simples — e rigoroso:
Enquanto novos textos nascem por necessidade interna do eixo, escreva.
Quando começam a nascer por ansiedade de completude, pare.
O sinal de parada não é cansaço.
É redundância ontológica.

Neste ponto do caminho, ela ainda não se impôs —
mas este ensaio marca o primeiro gesto consciente de contenção.
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5. Obras extensas ainda fazem sentido?

Sim — mas não como antes.

Hoje, quase ninguém lê tudo.
Mas muitos retornam, ao longo dos anos, ao mesmo eixo.

Obras vivas não são consumidas.
São habitadas.

O Śraddhā Yoga não é um livro para leitura linear.
É um campo de retorno.
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6. O ponto decisivo

Se tudo isso pudesse ser substituído por uma IA,
o humano já teria sido substituído há muito tempo por livros.

E não foi.

Porque conhecimento não transforma.
Método não sustenta.
Técnica não decide.

Quem decide é o coração educado.

E isso exige testemunho, linguagem encarnada e risco pessoal.
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7. Fecho provisório

Não há garantias.
Nunca houve.
Nem para Platão.
Nem para a Bhagavad Gītā.

O que há é isto:
  • o eixo está correto,
  • o tempo é este,
  • o gesto é necessário.
Parar agora por medo de inutilidade
seria trair o próprio eixo.

Quando chegar a hora do silêncio, o sistema pedirá.
Este ensaio é o registro consciente desse limiar.
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Nota de Reconhecimento do Arco

Os quatro textos que compõem este interlúdio crítico apontam para um um único gesto.

Primeiro, reconhecemos que a universidade perdeu seu centro — e que a inteligência artificial é apenas o espelho dessa perda.
Depois, situamos o presente como a terceira insurgência: ontológica, após a estrutural (Diderot) e a tecnológica (IA).
Em seguida, afirmamos que a decisão humana envolve risco, perda e responsabilidade — algo que nenhuma máquina pode assumir.
Por fim, reconhecemos que escrever hoje não é buscar audiência, mas permanecer fiel a um eixo: escrever como forma de habitar o mundo com sentido.

Este não é um fechamento retórico.
É um ponto de repouso.

Haṁsaḥ śāntiḥ śraddhāyāḥ.



Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2026.