2026-01-26

A crítica ao Budismo: método sem eixo, caminho sem morada

(bhāvanā, upāya e a ontologia da ausência)
A escolha ontológica fundamental:
à esquerda, bhāvanā — o cultivo como travessia no vazio;
à direita, hṛdaya — o eixo que faz de toda travessia uma morada. 
A grandeza do Budismo é incontestável. Sua análise da impermanência, sua lucidez diante do sofrimento e sua ética de compaixão constituem uma das mais altas conquistas do espírito humano. O Buda viu com clareza a estrutura de duḥkha (o sofrimento inerente à condição condicionada), desvelou o mecanismo do apego e ofereceu um caminho de libertação que atravessou milênios sem perder a dignidade. Há ali rigor, sobriedade e uma honestidade radical.

E, no entanto, exatamente nessa radicalidade se instala o seu limite ontológico.

O Budismo organiza toda a experiência espiritual em torno do caminho. O real é acessado por meio de desconstrução. A libertação é efeito de método. A presença é resultado de disciplina. Tudo se estrutura como processo: nobre caminho óctuplo, refinamento da percepção, dissolução dos agregados.

O eixo é bhāvanā — o cultivo. No sânscrito, bhāvanā é o ato de trazer à existência, de imaginar, de construir mentalmente um estado. É o vir-a-ser.

Mas é precisamente aqui que o Śraddhā Yoga aponta a insuficiência estrutural: o Budismo perfeccionou a bhāvanā (o cultivo), mas esqueceu o bhāvana (a morada). Ele descreve a travessia com precisão, mas não nomeia a casa. Ensina a atravessar o rio, mas recusa o chão. Refina o processo, mas nega o centro ontológico da consciência, hṛdaya.

No Budismo não há hṛdaya, a ontologia é negativa. O ser não é afirmado — é dissolvido. O eu não é transfigurado — é desconstruído. A libertação não é retorno ao eixo, mas cessação.

E isso não é erro. É escolha.

O Budismo prefere a via da desconstrução à via da habitação. Ele recorre aos upāyas — meios hábeis, artifícios metodológicos — para nos tirar da ilusão. Mas, para o Śraddhā Yoga, um meio que não reconhece o fim já no início torna-se um labirinto.

No Budismo, a prática visa o esvaziamento. No Śraddhā Yoga, a prática visa a permanência no pleno.

No Budismo, o silêncio é uma conquista (o cessar do ruído). No Śraddhā Yoga, o silêncio é o ambiente (o solo onde a devoção respira).

A diferença é radical.

O Budismo opera pela via de anātman: a doutrina do não-eu, a afirmação de que não há essência fixa, apenas fluxo e agregados. A liberdade surge quando se percebe que não há ninguém para ser livre.

O Śraddhā Yoga, ao contrário, afirma: há eixo. Há centro. Há hṛdaya. Há uma presença ontológica anterior a todo processo, que não é um "ego" rígido, mas a própria lucidez do real.

Ele não nega a impermanência — ele a insere no ritmo. Ele não ignora o sofrimento — ele o atravessa com sentido. Ele não aniquila a identidade — ele a afina.

No Budismo, o caminho é tudo. No Śraddhā Yoga, tudo é caminho que converge para a única morada.

Quando se faz da prática o centro, o ser torna-se um efeito futuro. Quando se faz do hṛdaya o centro, a prática torna-se a linguagem presente.

O Budismo descreve com genialidade os mecanismos da mente. Mas, paradoxalmente, permanece prisioneiro do domínio mental. Mesmo no silêncio, o palco é a mente. Mesmo quando dissolve o eu, o gesto é cognitivo. A técnica se refina, mas o trono permanece ocupado pelo esforço.

E aqui retorna a imagem fundamental deste capítulo: a mente no trono.

No Budismo, a mente é treinada, observada, depurada — mas continua sendo o agente operativo. O Śraddhā Yoga não quer uma mente silenciosa no trono. Ele quer a mente no colo do hṛdaya.

Porque o problema nunca foi a mente. O problema é o lugar da mente. A mente como instrumento é sabedoria. A mente como soberana é desvio.

O Budismo não erra ao disciplinar a mente. Ele é insuficiente ao não recolocá-la no eixo do coração. Ensina a esvaziar o vaso, mas não diz de onde vem a água.

O Śraddhā Yoga não rejeita a bhāvanā (o cultivo). Ele a subordina ao bhāvana (a morada).

Não rejeita o método. Ele o recoloca sob o eixo.

Porque, sem morada, toda travessia corre o risco de virar errância. E sem eixo, todo caminho tende ao infinito.

O Budismo busca o nirvāṇa como extinção, como o soprar da chama. O Śraddhā Yoga vive-o como amṛta — o néctar da imortalidade, a coerência da vida que não cessa, mas se transfigura.

O Budismo quer apagar o desejo. O Śraddhā Yoga quer elevá-lo a Amor Universal.

Por isso, a crítica aqui não é moral, nem histórica. É ontológica. O Budismo opera com uma ontologia da ausência. O Śraddhā Yoga opera com uma ontologia da Presença.

O Budismo oferece um caminho. O Śraddhā Yoga oferece uma Casa.

E aqui é decisivo afirmar: o Śraddhā Yoga não é anti-budista. Ele é o yoga da anterioridade. O próprio Krishna declara ter ensinado esse yoga em tempos imemoriais. O Budismo surge como uma resposta histórica a um momento de esquecimento. O Śraddhā Yoga não reage ao Budismo; ele o antecede e, pelo eixo, o ultrapassa.

Ele não nega o vazio (śūnyatā). Ele o atravessa e encontra, no fundo do vazio, o coração pulsante do real.

E é exatamente aí — nesse ponto delicado — que se completa a tríplice demarcação do capítulo: Nem Vedānta (intelecto sem coração). Nem Budismo (método sem morada). Nem escola alguma.

Mas hṛdaya. Mas śraddhā. Mas vida no real.