2022-01-22

Casamento — Um Saṃskāra do Hṛdaya

(22 de janeiro / 06 de fevereiro de 1983)
Casamento não é apenas um acontecimento social, nem um marco jurídico ou afetivo. É um saṃskāra — um gesto que imprime forma duradoura ao ser quando nasce do hṛdaya e se sustenta no tempo como eixo, não como contrato.

1. A Assimetria dos Tempos

Certos gestos pertencem ao tempo social — precisam de testemunhas, datas, registros. Outros, ao tempo do coração — exigem, primeiro, o silêncio. As imagens que abrem este texto preservam essa assimetria necessária: de um lado, o rito público; do outro, o rito silencioso. Não há hierarquia entre eles, mas uma distinção funcional: nem tudo o que sustenta a vida ocupa o centro da cena.

No dia 22 de janeiro, celebramos nosso casamento diante da família, inseridos na tradição judaico-cristã que nos deu nome no mundo. Foi um rito solar, reconhecido, partilhado — como deve ser o início de uma família.

Mas algumas semanas depois, no dia 06 de fevereiro, ainda durante a lua de mel, celebramos um segundo rito. Não por duplicação, mas por aprofundamento. No antigo Ashram Atma, em Sergipe, Francisco Barreto e Sérgio Barretto cooficiaram uma cerimônia simples, sem anúncio, apenas na presença de poucos amigos próximos.

Ali, o casamento não foi declarado ao mundo — foi assentido no hṛdaya.

Em respeito ao tempo de maturação daquele gesto, esse segundo rito permaneceu em sigilo por muitos anos. Algumas verdades não pedem reconhecimento imediato; pedem proteção.

O tempo passa, mas o eixo permanece. Compartilho aqui o registro da simplicidade e da força do saṃskāra em ação.

1983: Casamento — Um Saṃskāra do Hṛdaya

2. O Casamento como Gurukula Doméstico

O que ali se selou não foi apenas um laço afetivo, mas a fundação de um Gurukula: um espaço onde a vida doméstica se torna disciplina de consciência. O compromisso não era apenas "viver juntos", mas viver o casamento como prática de Saṃskāra (sacramento que grava o real).

Muitas vezes, esquecemos a relação íntima entre "ambiente doméstico" e "meio ambiente". A casa é o primeiro ecossistema. Se não houver ecologia no olhar, no prato e na palavra dentro de casa, não haverá fora dela. Foi nesse espírito que o vegetarianismo e a ética do cuidado nortearam, desde o início, a liturgia diária do nosso ambiente doméstico. O Gurukula que construímos e que assim seria reconhecido anos mais tarde, não é uma escola formal, mas um campo de ressonância onde a "práxis é tornar a vida toda uma meditação".

3. O Cartão e a Lei Universal

Pouco mais de um ano vivido nessa comunidade, por ocasião do aniversário de Cássia, Francisco enviou-nos um cartão que guardamos até hoje como uma bússola.

Nele, lê-se:

"O AMOR é a força mais poderosa do Universo; e tudo quanto é feito por sua causa tem atrás de si a LEI UNIVERSAL. Não deveis confundir sentimentalismo com amor...".

Essa mensagem, datada de 1988, já apontava para o centro do que hoje chamamos de Śraddhā Yoga. Ela fala de hṛdaya — não como emoção passageira, mas como centro ontológico da consciência, onde se inscreve a lei cósmica do amor universal, Ṛta.

O coração mais íntimo não tem "corrente", porque não sabe viver acorrentado. Ele busca apenas o ritmo, a cadência e o compasso da Unidade.

4. A Comédia do Hṛdaya: "La Belle Verte"

Anos mais tarde, já no Rio de Janeiro, encontramos uma ressonância inesperada dessa visão no filme La Belle Verte ("Turista Espacial", 1996).

Praticamente banido do mercado por sua crítica lúcida, o filme funciona como uma "comédia do hṛdaya". Ele retrata, com humor implacável, um mundo que perdeu o eixo: onde o progresso virou aceleração e a inteligência virou desconexão.

Ao defender hábitos simples — a dieta vegetariana, o cuidado com os bebês, a cooperação acima da moeda —, a obra de Coline Serreau não propõe uma utopia ingênua, mas um retorno ao "bom senso" ontológico. O riso que ele provoca nasce do reconhecimento: quando o coração não orienta, até o óbvio precisa ser reaprendido.

Um Manifesto Eco-Espiritualista
La Belle Verte – “Turista Espacial” (1996) 


Conclusão: A Renovação do Assentimento

Olhando para trás, vejo que o rito secreto do Ashram e o riso de La Belle Verte apontam para o mesmo lugar. O casamento, entendido como Saṃskāra, é o compromisso não apenas com o cônjuge, mas com a grande família estendida da humanidade.

Celebrar o casamento hoje não é contar o tempo cronológico. É renovar o assentimento àquele eixo que foi plantado no silêncio.

Os gestos feitos a partir do hṛdaya não precisam ser defendidos.
Eles apenas continuam.