Śuddha Rāja Yoga: a disciplina pessoal

Na prática do Bhāvana procura-se externar o sentimento de unidade (Tudo é manifestação de Brahman) que decorre da meditação e se aperfeiçoa com ela.  O Bhāvana representa, portanto, o reconhecimento da presença, em todas as coisas, da Essência do Sagrado.
Esquema da ordenação do pensamento (cintā)
1. As Cinco Formas de Ordenação do Pensamento (Cintās) e a Arte de Aprender a Nascer e Morrer em Deus. 

O Śuddha Rāja Yoga1, revelado por Krishna na Bhagavad Gītā, funda-se em cinco formas de ordenação do pensamento (cintā; pronuncia-se “tchintaa”) estabelecidas a partir de śraddhā (o ardor e o poder do coração que empodera tudo o mais; a bússola interior; a convicção íntima; a percepão sutil; e o sentimento da imanência e transcendência do sagrado):

(1) Vibhūti-cintā, ou seja, a ideação e a percepção (cintā) das excelências (vibhūti) divinas que compõem o universo manifestado;

(2) Jñāna-cintā, a reflexão crítica e racional (cintā) sobre todo o conhecimento (jñāna) adquirido e testado na práxis do cotidiano;

(3) Saṃkalpa-cintā, lembrança constante (cintā)  das resoluções (saṃkalpas) tomadas, de uma vez por todas e para sempre  (Ananta he!);

(4) Karma-cintā, a reflexão (cintā) sobre o modo correto de atuar no mundo e o exercício (karma) constante para fazer de toda ação uma meditação na ação; e

(5) Brahma-cintā, o esforço de contemplação da ideação (cintā) da projeção parcial do infinito Brahman durante o processo de manifestação do cosmos.

Não é difícil perceber que estas cinco formas de cintās, fundadas em śraddhā, compõem as três bases do Śuddha Rāja Yoga:

(1) Bhāvana (ideação, ou estado contemplativo em que a mente se encontra ativa, com atenção plena na unidade que fundamenta o processo de vir-a-ser do mundo);
(2) Karma (a meditação na ação e o esforço em direção à reta conduta); e
(3) Dhyāna (meditação, ou estado contemplativo em que a mente se encontra imóvel, absorta na luminosa experiência do sagrado, manifestada pelo ardor do fogo do coração, ou śraddhā).

O conceito de Bhāvana (ideação) difere ligeiramente de Dhyāna (meditação). Enquanto o termo "Bhāvana" deriva de "bhava", e sugere o movimento da mente para compreender o "processo de vir-a-ser" do universo, "Dhyāna" é indicativa de um estado fixo em que a mente se encontra absorta e imóvel, iluminada e apenas refletindo, ou irradiando, a luz pura do Espírito presente em nós e feito à imagem e semelhança do Supremo Espírito. Deste modo, a prática do Bhāvana abarca as duas primeiras cintās – Vibhūti-cintā e Jñāna-cintā – e  Dhyāna, a última – a Brahma-cintā –, que expressa a contemplação daquilo que está na raiz mesma de toda a criação. Karma, por fim, está representada nas duas outras cintās:  Saṃkalpa-cintā e Karma-cintā. Relaciona-se com a esfera da meditação na ação, conhecida como  śuddha prāṇāyāma, que implica em perceber:
(1) o ato de inspirar (pūraka) como um exercício de unificação com o cosmos, ou Bhāvana;
(2) o ato de assimilar o alento vital (kumbhaka) como uma disciplina de orientar a nossa conduta, ou Karma, pelo sentimento de sagrado e unidade de todas as coisas; e
(3) o ato de exalar (rechaka)  como uma prática de meditação, ou Dhyāna.
2. Bhāvana Namaḥ: a disciplina interior que conduz à Atenção Plena

Considerando que a Atenção Plena pode ser compreendida como o jejum de tudo que desvia o nosso foco do do coração, que nos revela sagrado oculto em todas as coisas e experiências da vida, estabeleço agora para mim, "Só por hoje",  o compromisso de realizar o jejum de pensamentos, palavras, alimentos dos sentidos e de tudo que desvia a nossa atenção do sentimento de Bhāvana, ou de amor universal e compaixão com todos os seres, que nasce do coração. A Atenção Plena pode ser definida como a capacidade de manter a mente em repouso no coração, de modo a reconhecer a presença do sagrado em tudo o que a vida nos oferece em cada novo instante, possibilitando-nos aceitar com gratidão, bem como enfrentar com confiança e destemor, todos os desafios que a vida nos apresenta. Bhāvana Namaḥ representa, portanto, o jejum da mente, em forma de rendição (Namaḥ) ao coração e, consequentemente, à percepção amorosa da unidade do mundo e de todas as coisas (Bhāvana).

3. Śaṭkarman Ekatāla (o ajuste fino da disciplina da ação).

Śaṭkarman: os Seis Deveres do Śuddha Iogue
Śaṭkarman, os seis deveres do Śuddha Iogue, descritos no quadro ao lado e já discutidos anteriormente, ilustram o que se deve entender pela disciplina da meditação na ação, conhecida como Karma e simbolizada no śuddha prāṇāyāma: inspirar (pūraka), apreender (kumbhaka) e exalar (rechaka) o sagrado. O processo da respiração conota o ato de nascer, viver e morrer em Deus. A respiração simboliza a Trimūrti da tradição védica (ou seja, as três manifestações do Supremo Brahman – Brahmā, Viṣṇu, e Śiva) e as suas respectivas funções cósmicas de criação, preservação e desintegração da multiplicidade.

Aprender a nascer em Deus, viver em Deus e morrer em Deus representa a quintessência da disciplina da ação, contida no śuddha prāṇāyāma. Deixar de ser para vir-a-ser. Nascer (inspirar) e morrer (expirar) em cada respiração. É somente esta a disciplina da ação: tornar-se, em cada respiração, uma expressão mais perfeita e bem acabada do sagrado. Cada respiração com a consciência em Deus oculta em si mesma todo o yoga e toda a ciência da meditação. Assim treina-se a mente a se aquietar, até que ela se torne um lago tranquilo a refletir a luz pura do Espírito, de onde surgem as intuições superiores. Regulando a respiração a partir do coração oferece-se o campo para o surgimento de sentimentos que merecem ser cultivados pela mente, sem perturbar o desabrochar natural do fluxo ascendente da kuṇḍalinī, a energia vital, que, sob a forma de śraddhā, conduz à iluminação.

3.1. A precedência de Śreyas (anseios altruístas) sobre Preyas (anseios passionais). O desejo é a força motriz que orienta as nossas atividades. Daí as distintas tradições religiosas proporem como disciplina a regulação dos desejos. Na literatura sagrada da Índia antiga o desejo aparece sempre associado ao par Śreyas e Preyas. O anseio altruísta, Śreyas, infalivelmente, nos conduz à transcendência sobre a influência dos pares de opostos e às realizações superiores do espírito. De outro lado, contudo, o anseio passional, Preyas, revela o espírito insatisfeito e em  busca de prazeres efêmeros que, no início, são doces como o mel, mas no final apresentam a amargura do fel.

À medida que fortalecemos as nossas habilidades e compreendemos os exemplos deixados por aqueles que se libertaram da via das adicções, sublimamos os nossos desejos inferiores. Por meio de pequenos Saṃkalpas (resoluções que fortalecem a faculdade da vontade) e outras estratégias espiritualistas com as quais nos comprometemos "só por hoje", aprimoramos, progressivamente, as nossas ações, ideações e meditações. Aos poucos, os desafios "só por hoje" tornam-se uma conquista definitiva, "para sempre!" (Ananta he!), passando a fazer parte de nós mesmos. Deste modo, ao avançarmos pela via altruísta, representada na tríplice disciplina do Śuddha Rāja Yoga (ideação, ação e meditação) descrito na Bhagavad Gītā, aquilo que, de início, era amargo como o fel, logo se revela doce como o mel.

3.2. Maha Saṃkalpa (Grande Resolução).  Trinta e um anos após ter iniciado o estudo sobre as cinco formas de ordenação do pensamento (Cintās) segundo o sentimento amoroso e a luz natural do coração (śraddhā), estabeleço agora para mim, de forma definitiva (Ananta he!), o Maha Saṃkalpa do Śuddha Iogue, representado na precedência dos anseios superiores (Śreyas) sobre aqueles de origem emocional (Preyas):

"Aos outros, dou o direito de serem como são; a mim, o dever de ser cada dia melhor".

Os únicos Saṃkalpas que podem deixar de ser cumpridos são aqueles que comprometem um ideal maior. As decisões mais importantes que tomamos, contudo, são aquelas com as quais nos comprometemos de forma definitiva, por um ato de vontade, pelo resto de nossas vidas. Quando alguém se decide, por exemplo, por ter um filho, está realizando o voto sagrado de assumir "para sempre" (Ananta he!) o papel de mãe ou de pai. Esses compromissos "para sempre" podem não ser explícitos, mas nem por isto deixam de constituir uma espécie de voto sagrado. Todos os grandes seres nos ensinaram sobre esses votos em forma de jejum que preservam o nosso foco, auxiliando-nos a desenvolver a Atenção Plena. Há o jejum de alimentos, há o jejum de palavras (silêncio) e, por fim, o jejum de pensamentos, que nos conduz ao estado de testemunha (Sākśī), ou de contemplação, conhecido como Śuddha Dhyāna, ou meditação pura.

4. Śuddha Dhyāna

A Śuddha Dhyāna expressa a meditação que se inicia pura e silenciosa no recolhimento das madrugadas e se prolonga pelo dia como expressão de uma contínua meditação na ação, com atenção plena e foco no sagrado de cada minúscula experiência que a vida nos reserva. O desafio, em suma, de fazer que a mente se oriente, UNICAMENTE, pela atitude de entrega (Tyāga) ao sagrado que experimentamos pelo coração constitui o segredo último contido nos Evangelhos, na Torá hebraica, no Corão, nos Jātakas e outros textos do budismona via sagrada do Tao, nos Yoga Sūtra, na Bhagavad Gītā e também em vários textos e rituais, tanto de nossos ancestrais como das mais distintas culturas e tradições.

(1) Para conhecer a pronúncia das palavras sânscritas veja o nosso resumo do Guia de Transliteração e Pronúncia das palavras sânscritas.


Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2016
(atualizado em 06.06.18)