O que é a Prática do Bhāvana do Śuddha Rāja Yoga?

Arjuna, cultivando a consciência do sagrado.
Arjuna, o herói da Bhagavad Gītā,
cultivando o sentimento de unidade.
Designa-se com nome de Bhāvana1 no Śuddha Rāja Yoga à seguinte ideação, oriunda da percepção de que tudo se origina do Supremo Brahman:
Penso com amor que todas as coisas e seres hão nascido de dentro do Espírito Universal,
Que a tudo compenetra e a tudo sustém, em uma ordem constante e em vida eterna.
Penso com amor que todos os seres, tanto inferiores como superiores,
Participam de uma mesma vida e formam nos espaços infinitos um só corpo cósmico.
Em seu Prólogo à edição chilena de Śuddha Rāja Yoga (1976), de Sri Haṃsa Yogi, Sri Vajera Yogi Dasa, introdutor da ciência da meditação na América Latina, nos idos de 1920, lembra da importância de “Bhāvana”, que constitui, juntamente com os termos “Karma” e “Dhyāna” a base onde o próprio Śuddha Rāja Yoga se assenta.  Sem o sentimento de Bhāvana, nem a atividade no mundo concreto (Karma), nem a meditação na essência e unidade de todas as coisas (Dhyāna), podem ser consideradas práticas perfeitas e completas. Na prática do Bhāvana procura-se externar o sentimento de que o universo necessita ser visto como uma obra de arte. Não basta compreendê-lo pela razão. Torna-se necessário emocionar-se com ele, ou indignar-se, até, ante os casos de violência e injustiças. É o coração que nos permite perceber a vida e o universo como uma espécie de poema cósmico, onde o solo, os rios, a água, o ar que respiramos e a própria vida aparecem como partes de um todo sagrado e em perfeito equilíbrio. Nem a razão tecnicista da ciência do século passado, nem os antigos dogmas de fé possibilitaram esta solução, que passa por reaprender a olhar para este universo e para a vida como expressões do sagrado. Quando se trata a vida toda como sagrada, percebe-se que a Natureza cuida e zela por todos nós. O Bhāvana representa, portanto, o reconhecimento da presença, em todas as coisas, da Essência do Sagrado (Śuddha Dharma). É a isto que se chama, verdadeiramente, de contemplação -- Bhāvana.  Não se trata aqui da adoração a alguma divindade externa, mas desse esforço que nos conduz ao reconhecimento da presença do Sagrado em todas as coisas, pois tudo é manifestação de Brahman.

Haṃsa Yogi inicia o seu discurso sobre Rāja Yoga afirmando que o Bhāvana constitui o seu primeiro e mais importante componente, expressando a compreensão da Unidade que existe na criação inteira, incluindo todos os seres vivos, os distintos seres espirituais, o meio ambiente, os diversos planos sutis da existência e as suas leis de funcionamento. Argumenta que, no início, a prática do Bhāvana aquieta e tranquiliza a mente para que esta possa se conduzir à sua realização espiritual, quando então ela se torna a expressão e marca característica de quem alcançou a realização. Ele afirma que três coisas facilitam o desenvolvimento desse estado onde a consciência de Bhāvana se desenvolve:
(1) o estudo da Ciência Sintética do Absoluto (Yoga Brahma Vidyā),
(2) a associação com pessoas que estão se esforçando para viver os mesmos ideais e
(3) a busca de aprimoramento da prática do Bhāvana por meio do cultivo dos ensinamentos sobre o Śuddha Dharma. 
A prática de trazer à lembrança o conceito de Bhāvana, com o tempo, se confunde com os movimentos de exteriorização (Bhāva) e interiorização (Abhāva), inerentes à natureza própria do sagrado. É a esta experiência que nos identifica ao sagrado que se denomina, adequadamente, de Bhāvana. Haṃsa Yogi deixa claro, contudo, que o conceito de Bhāvana (ideação) não se confunde com o conceito de Dhyāna (meditação), pois esta é indicativa de um estado fixo em que a mente se encontra absorta e imóvel. "Bhāvana", de outro lado, deriva de “bhāva”, “sentimento intuitivo”, “processo de vir-a-ser’. A prática do Bhāvana procura externar o sentimento de unidade (Tudo é manifestação de Brahman) que decorre da meditação e que se aperfeiçoa com ela.  O Bhāvana representa, portanto, o reconhecimento da presença, em todas as coisas, da Essência do Sagrado.

Na Bhagavad Gītā (BhG), texto fundacional do Śuddha Rāja Yoga e que se propõe como uma síntese de todo o pensamento védico e não-védico, o termo “bhāvana” ocorre nos versos BhG 2.66, BhG 9.5 e BhG 10.15, que correspondem, respectivamente, aos versos ŚDM 18.15, ŚDM 17.5 e ŚDM 13.1 da versão da Gītā extraída do comentário de Haṃsa Yogi e publicada pelo Śuddha Dharma Maṇḍalam (ŚDM).  O capítulo 18 da recensão da Gītā de Haṃsa Yogi é especialmente útil para esclarecer o significado de bhāvana. O texto aponta para uma dimensão de Bhāvana como pré-requisito do processo que conduz à sabedoria e à paz verdadeira pouco explorada até então. Inicia com a discussão sobre a natureza necessária e complementar de bhāva (exteriorização) e abhāva (interiorização).  Enquanto bhāva expressa o “o vir-a-ser”, abhāva representa a “cessação do vir-a-ser que é ilusório”, fruto de se cultivar o campo (kṣetra) dos estados mentais sob a influência enganosa dos órgãos dos sentidos.  Os versos das duas outras ocorrências do termo “bhāvana” na Gītā são BhG 9.5 (ŚDM 17.5) e BhG 10.15 (ŚDM 13.1). No primeiro caso, “bhāvana” ocorre em uma expressão composta para indicar o aspecto transcendental do Ser Universal, passível de representação apenas como o Īśvara, o Ser Supremo; no segundo, para designar a experiência do ser humano (na pessoa de Arjuna) com o Ser Supremo (na pessoa de Krishna), origem do cosmos, morador interno, presente em todos os seres, regente e protetor  das inúmeras formas de vida. 

Na prática do Bhāvana procura-se externar o sentimento de unidade (Tudo é manifestação de Brahman) que decorre da meditação e se aperfeiçoa com ela.  O Bhāvana representa, portanto, o reconhecimento da presença, em todas as coisas, da Essência do Sagrado.
Esquema da ordenação do pensamento (cintā)
Esquema da ordenação do pensamento (cintā)

A figura ao lado apresenta um pequeno esquema da ordenação do pensamento (cintā) realizado em 1987, quando procurava compreender a relação entre os três componentes do Śuddha Rāja Yoga. Vasudeva Row discute as cintās (pronuncia-se “tchintaas”) em um estudo que acompanha a tradução ao espanhol da obra Yoga Dīpikā (Madras: 1916), publicada pela seção chilena do Śuddha Dharma Maṇḍalam (1972). Afirma que a Brahma-cintā, ou seja, o esforço de contemplação da ideação (cintā) da projeção parcial do infinito Brahman durante o processo de manifestação do cosmos já é, por excelência, meditação (p. 161). Por estar na origem de tudo, tal ideação atua sobre as faculdades mentais, onde se originam as demais cintās, que compõem o Śuddha Rāja Yoga: Vibhūti-cintā (ideação ou percepção das excelências); Jñāna-cintā (reflexão sobre o conhecimento adquirido); Saṃkalpa-cintā (lembrança constante das resoluções tomadas) e Karma-cintā (exercício constante do modo correto de atuar).

Não é difícil perceber que as cinco cintās compõem as três bases onde se funda o Śuddha Rāja Yoga:

(1) a prática da Bhāvana está compreeendida nas duas primeiras cintās -- Vibhūti-cintā e Jñāna-cintā;
(2) aquilo que se entende por Karma está representado nas duas seguintes -- Saṃkalpa-cintā e Karma-cintā; e
(3) Brahma-cintā representa aquilo que está na raiz mesma de toda a criação, Dhyāna.

Isto explica, inclusive, que em estágios avançados, o praticante não necessite de nenhum aparato ritualístico como suporte para as suas práticas de Śuddha Rāja Yoga.  Chega o tempo em que já não se necessita de vela, incenso, ficar com os olhos fechados, nada disto. Pode-se, então, realizar as suas práticas em qualquer lugar, o tempo todo. Esta particularidade denota a natureza universal do Śuddha Yoga, que  a um só tempo o distingue e o unifica aos demais sistemas de pensamento.

O Śuddha Yoga implica em não se privilegiar uma forma de espiritualidade, ou de prática religiosa, mas em se deixar guiar, simplesmente, pela percepção da essência pura (śuddha) da lei (dharma) que rege o funcionamento objetivo e subjetivo dos seres e que na linguagem técnica do sânscrito designa-se como Śuddha Dharma.

(1) Para conhecer a pronúncia das palavras sânscritas veja o nosso resumo do Guia de Transliteração e Pronúncia das palavras sânscritas.

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Texto inicial: O Caminho do Coração: Livro-Blog no ar sob a égide de Śraddhā


Rio de Janeiro, 02 de outubro de 2016
(Atualizado em 24.04.18)