Ensaio Autobiográfico

Este Diário é a bússola anti-psicanalítica de que me valho para alcançar o porto seguro do Ser.
Chega a idade em que todos começamos a avaliar a vida. Fazemos um balanço e vamos compondo um roteiro com as experiências acumuladas. Em geral, iniciamos esse roteiro quando sentimos que nos aproximamos da morte, ou seja, quando já é muito tarde para se poder apreciar sem pressa o filme de nossa própria história. Se queremos extrair desse filme o registro do que de melhor a vida nos ofereceu, contudo, o mais apropriado é iniciar o quanto antes este balanço, onde nos vemos, frente a frente, com cada um e todos aqueles cujas memórias irão, de qualquer modo, nos visitar em nossos instantes finais. Onde ficamos em falta? O que faltou corrigir? Este balanço nos prepara gradativamente para enfrentar o mistério da morte sem receio de nada e com a certeza que tiramos da vida o proveito e as experiências de que necessitávamos. Ele nos alerta também para as devidas correções de curso que impedem os arrependimentos quando não se tiver mais tempo para voltar atrás e realizar o que se sente que ficou faltando. O tempo é agora. Doenças e dor são melhor assimiladas quando se está em paz com a consciência. Velhos hábitos, antigas amizades, dissabores, tudo toma forma e vida em nossa mente, podendo tanto iluminar como assombrar o nosso caminho e o nosso encontro com a morte. Afinal, até mesmo uma velhice sem doenças e dores pode ser solitária, triste e agonizante.

Neste Livro-Blog, na verdade uma reconstrução do diário em forma de diálogo da consciência, iniciado em 1979, estimulo a reflexão amorosa sobre a ciência da meditação e a sua influência no entendimento sobre a natureza humana e, consequentemente, de nossa própria finitude. Quando um Diário assume a forma de Memórias, é porque já se está a refletir, sem receios, sobre a proximidade, ou certeza, da própria morte. E o que é a morte? A morte ainda é um tabu. Evita-se falar, discutir, ou mesmo se preparar para a morte. Contudo, ela constitui a única certeza incontestável deste mundo. Alguns podem pensar que escrevo assim porque já estou bem perto de morrer. Na verdade, começo cedo estas memórias sob a forma de Livro-Blog para conseguir refletir sobre o meu aprendizado durante esta jornada. E se há um sentido maior para o mistério da vida, e esta é a minha aposta, é deste sentido que espero estar, a cada dia que passa, me acercando mais. Exercito o meu olhar e a minha escuta como um observador neutro, que não julga, mas que simplesmente contempla o Ser em si mesmo, para que esta experiência vá, aos poucos, reunificando o ser cindido em sua relação com o Todo. E assim que cada novo dia vai deixando de ser o mesmo e velho dia, que se repete sempre, sem que mudemos e nos aproximemos de nós mesmos. Como um observador neutro, em meditação, valho-me desta postura (āsana) para inibir aqueles velhos hábitos que nos impedem de tomar o assento definitivo do Ser.

 Registro Biográfico dos Principais Saṃkalpas, Dīkṣās e Saṃskāras1


15.02.17. Bhāvana Namaḥ! O compromisso, "Só por hoje", com a rendição total ao sentimento de amor universal, o que significa permanecer em constante vigília e oração para não quebrar o jejum de pensamentos, palavras, alimentos dos sentidos e de tudo que distrai a nossa atenção do processo de Brahma-sāmīpya.
13.10.16. Sétimo Saṃkalpa. Śuddha Saṃkalpa, ou o compromisso definitivo de vigiar para não me afastar do processo de Brahma-sāmīpya, com o dever de buscar ser cada dia uma pessoa melhor.
19.02.16. Sākśī Dīkṣā. A iniciação, com a compreensão, na prática, da disciplina interior que conduz à Meditação Pura (Śuddha Dhyāna).
12.03.15. Sexto Saṃkalpa. Decisão definitiva ANANTA-HE (“Para sempre, com certeza!”), de não me desviar do Ātma-Yoga Mārga e de atuar no mundo consoante os seis discursos de Mitradeva.
05.02.12. Quinto Saṃkalpa. Decisão de apoiar e trabalhar como voluntário pela implementação da futura Universidade Śuddha (Universidade do Coração).
29.05.10. Quarto Saṃskāra. Cerimônia de Consagração como Emissário do Śuddha Sabha Ātma.
17.04.2007. Śuddha Haṃsa Yogi  DīkṣāConferência do grau da classe Haṃsa para a elaboração de estudos e comentários sobre o Śuddha Dharma.
01.01.2003. Haṃsa Yogi Vāg Dīkṣā. Iniciação e recebimento do respectivo Śuddha Prāṇāyāma para a interpretação de textos sagrados.
15.11.2002. Rūpa Sūtra Dīkṣā. Iniciação e recebimento do respectivo sūtra para se representar a tecitura do sagrado: devanāgarīśāstraṃ dhyānaṃ rūpakaṃ.
07.2002. Śraddhā Dīkṣā. Iniciação sutil à hermenêutica do Śuddha Dharma.
25.12.1990. Ṛṣi-nyāsa Dīkṣā. Iniciação sutil para o estabelecimento do contato com o mestre espiritual, que possibilita a transmissão silenciosa de conhecimento, de coração a coração.
09.1988. Terceiro Saṃskāra. Cerimônia Śuddha Brahmopanayana, da classe Dvija, para a interpretação da literatura sagrada.
08.1986. Quarto Saṃkalpa. Decisão de apoiar e trabalhar como voluntário pela implementação do Śuddha Sabha Ātma.
31.03.86. Terceiro Saṃkalpa. Decisão de renunciar (voto de saṃnyāsa) definitivamente, a toda forma de trabalho e remuneração não-ética (formalizada com o pedido de demissão como executivo da Monsanto).
06.02.83. Segundo Saṃskāra. Cerimônia de Casamento Iogue.
01.1979. Segundo Saṃkalpa. Decisão de elaborar um diário da consciência.
25.08.74. Primeiro Saṃskāra. Cerimônia de Consagração ao Śuddha Rāja Yoga Mārga.
1966. Primeiro Saṃkalpa. Decisão definitiva de me tornar vegetariano.
1961. Primeira Experiência "fora do corpo".
1960-2. Primeiras Experiências com os sonhos de tipo recorrente, em capítulos e lúcido.

(1) Para conhecer a pronúncia das palavras sânscritas veja o nosso resumo do Guia de Transliteração e Pronúncia das palavras sânscritas.

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Rio de Janeiro, 01 de outubro de 2016
(atualizado em 04.06.18)