A Opção pelo vegetarianismo desde a infância (1966)

Mahatma Gandhi na Vegetarian Society (1931)
Mahatma Gandhi na Vegetarian Society (1931)
I. Um pouco de história pessoal e o paradoxo da carne

Conforme menciono em "Sorriso Interior desde 1966: Vegetarianismo, Milo e D. Celina" sou vegetariano desde 1966, quando tinha nove para dez anos de idade. Não fazia ideia à essa época, obviamente, das consequências desta opção e dos caminhos que teria que desbravar para sobreviver em uma sociedade conservadora e pouco simpática com os diferentes e as minorias de todos os tipos. Venho de uma família onde o vegetarianismo sempre foi uma bandeira. Minha mãe e alguns tios maternos já eram vegetarianos quando nasci. Meu avô Edison Barretto, desde o início do século XX, já falava dos benefícios da dieta e da ética vegetariana das quais sempre procurara se aproximar. Minha mãe tornou-se "vegetariana" (sim, com aspas) no início dos anos cinquenta, época em que sequer havia o óleo de cozinha, de modo que aqueles que optavam pelo vegetarianismo tinham que fazê-lo continuando a consumir banha de porco, então utilizada para cozinhar. Àquela época também não haviam os supermercados e as facilidades de hoje. Quase não se encontravam verduras e legumes. Logo, era praticamente impossível decidir-se pelo "vegetarianismo", se este não fosse entendido como uma estratégia ovo lacto vegetariana de sobrevivência. 

Quando minha mãe se casou, morou uns tempos com a minha avó paterna, que não permitia interferências na cozinha e não admitia o vegetarianismo. Todas as comidas eram preparadas com carne. Até mesmo as verduras, o feijão e as sopas de legumes ganhavam produtos de origem animal "para dar mais gosto" ao alimento. Nessa época, minha mãe tinha que peneirar o feijão para evitar os pedaços de linguiça. Seria impensável argumentar que os produtos animais poderiam ser preparados separadamente. Emagreceu muito, pois quase não conseguia se alimentar. Muitos não acreditavam que ela sobreviveria e, dos médicos, ouvia apenas que a sua condição era culpa do seu próprio fanatismo. Quando, finalmente, nos mudamos para a nossa própria casa, ela logo se recuperou. Contudo, meu pai não se sentava à mesa se não houvesse ao menos um prato com carne. Desse modo, presenciei, desde pequeno, o exemplo de tolerância e compaixão do vegetarianismo praticado por minha mãe. Embora ela não comesse carne, era obrigada a lidar com as carnes, peixes e aves, que preparava conforme as exigências do meu pai e também das "visitas".  

Era o início dos anos sessenta e eu observava como minha mãe preparava com uma resignação cristã aqueles pratos de carne, sempre tendo o cuidado de preservar os demais pratos vegetarianos. Ela encontrara, na prática, uma forma de conciliar os seus ideais com as suas obrigações. Atendia às exigências de meu pai e também conseguia manter-se vegetariana, estimulando-nos a seguir o seu exemplo.  Nesse período, ao menos em casa, eu tinha confiança de que era "seguro" me servir do arroz, do feijão, das verduras e das saladas. Contudo, por volta de 1968, minha mãe ficou sem a pessoa que cuidava de mim e dos meus irmãos, enquanto ela e meu pai saiam para trabalhar. A solução foi o Parque Infantil Cásper Líbero, que fica ali do lado do campo da Portuguesa de Desportos, no Canindé. Saíamos do Colégio e, ao invés de irmos para casa, íamos para o parque, onde passávamos o dia sob os cuidados de professoras muito dedicadas. Almoçávamos e lanchávamos lá. Foi então que me dei conta das dificuldades que enfrentaria por ter me tornado vegetariano ainda criança. Quase sempre eu conseguia me virar bem, servindo-me de arroz e salada e deixando no prato, sem tocar, o feijão com linguiça e a carne.  Contudo, ainda me lembro, às quintas-feiras o cardápio era apenas macarrão com sardinha. Obviamente, eu não mexia no prato, que já vinha preparado pelas atendentes. Era, então, colocado de castigo, isolado dos outros, por indisciplina. E como o castigo não estivesse me "corrigindo", na hora do almoço, passou a vir até o refeitório a nossa supervisora, obrigando-me, à força, a engolir, até terminar, todo o prato de macarrão com sardinha. Passei a ter pesadelos por causa desse período que, por sorte, não durou muito. Com o tempo, e após terem convocado minha mãe para algumas reuniões com a diretoria, mesmo que a contragosto, aceitaram que eu poderia ser "diferente", se assim desejasse, mas que eu não teria nenhum "privilégio" -- que passasse fome, se quisesse. A partir de então, todas as quintas-feiras, eu sentava à mesa com os demais e aguardava até a hora da sobremesa, quando era servido um pequeno pudim. Então, cresci assim. Vegetariano convicto e sempre receoso de festas e outros ambientes onde não me sentia seguro para me alimentar.

Com o tempo, passei a frequentar a casa de alguns amigos e assim fui desbravando os meus próprios caminhos, até alcançar o meu primeiro emprego na unidade têxtil da Rhodia, em São José dos Campos, em 1982, onde trabalhei como engenheiro químico. As nutricionistas, naquele tempo, sequer haviam ouvido falar em vegetarianismo, de modo que a alimentação servida no refeitório da fábrica era toda com carne, não escapando nem o arroz e as saladas de folhas.  De tanto ir ao refeitório com os colegas e não encontrar absolutamente nada de que pudesse me alimentar, comecei a recusar aos convites para almoçar. Nesses momentos, encostava a porta da minha sala e fazia uma hora de meditação, o que me reanimava, deixando-me mais criativo e ativo a tarde toda. E eu notava que meus colegas voltavam do almoço empanturrados e com sono, apenas esperando o tempo passar para voltar para casa. Tudo ia bem, mas aquele simples e inocente gesto de não ir ao refeitório para o almoço, não passara despercebido da alta gerência e do próprio RH da empresa. Ele havia sido interpretado como uma postura de orgulho, arrogância e vaidade de quem se considerava superior aos demais e não queria com eles "se misturar". Esse boato logo alcançou toda a fábrica. Contudo, como um bom profissional produzindo bons resultados, minha reputação não estava de todo manchada e eu tinha a proteção daqueles que me eram mais próximos, como o meu superior imediato, o engenheiro Daniel Tavares Bastos Gama, que não se incomodava com estas minhas excentricidades. Pelo contrário, procurava me proteger das fofocas e piadas dos demais. Mesmo assim, vez por outra, eu ouvia em tom sarcástico: "engenheiro Turci, olha como a grama aqui do pátio está alta, vai lá pastar para abaixar o capim". 

Não era simples àquela época agir como agem hoje os modernos veganos, reagindo com certa agressividade e ironia fina, até. Embora não fosse a minha natureza reagir, também não era de levar desaforos para casa e não perdia a oportunidade de dar uma resposta à altura. Desse modo, certa ocasião, durante um almoço de confraternização, onde a bebida estava liberada, outra vez virei o foco das atenções: eu não bebia, não fumava, não comia carne... Afinal, o que havia de errado comigo? Por que eu era tão esquisito? Quando as pessoas bebem, necessitam de aprovação para o seu próprio comportamento que, intimamente, sabem inadequado e o fato de eu estar ali, sem beber, só fazia agravar esse sentimento quase inconsciente, mas que gerava incômodo.  Nesse dia, o sujeito que estava ao meu lado, já bastante alto, se achou no direito de me ridicularizar na frente de todos. Nada que eu não devesse aceitar calado, afinal ele exercia um cargo bem mais elevado que o meu. Começou com aquelas perguntas de sempre, que todos os vegetarianos já conhecem e sabem  aonde a pessoa quer chegar. Não muito satisfeito com as minhas respostas, inicialmente bastante diplomáticas, começou a questionar a racionalidade dos meus argumentos em defesa do meu comportamento vegetariano. Contra argumentei que não precisava apresentar razões para ser vegetariano, pois aquela era uma questão de sentimento, de coração, antes que de razão. Eu já compreendia que do ponto de vista da racionalidade vigente, o debate sempre seria inconclusivo, com ambas as partes defendendo as suas posições de uma maneira quase religiosa. Então, para encerrar a discussão, procurava dizer que não haviam "razões" nem crenças, apenas sentia compaixão pelos animais e por todos os seres vivos. Contudo, nesse almoço, quanto mais procurava me esquivar, mais acendia naquele grupo o desejo de discutir. Começavam a me perguntar se era a minha religião que não permitia, sugerindo que eu fosse um fanático, ou um maluco qualquer. 

Eu não tinha à essa época a compreensão daquilo que hoje os psicólogos chamam de "paradoxo da carne".  Como se sabe, o paradoxo da carne surge da percepção de que você pode ser um apaixonado por animais e, ao mesmo tempo, um carnívoro convicto. Por isto, as pessoas evitam pensar nos animais sofrendo e se sentem desconfortáveis ante a presença de tudo que lhes lembre disto, pois a ideia de satisfazer o prazer de saborear a carne é, por si só, ao menos perturbadora.  Eu nada sabia sobre essa dissonância cognitiva que aflige os carnívoros e que vem à tona como um estado psicologicamente desagradável. Estudos contemporâneos revelam que utilizamos todo o nosso aparato racional para atenuar a nossa culpa, ludibriando a nós mesmos com a falsa sensação de que é possível distinguir os animais que consumimos daqueles que consideramos "domésticos". Esta estratégia pseudo-racional é estabelecida a partir do cultivo de, basicamente, quatro crenças cegas e, aparentemente, ingênuas: o consumo de carne seria: (1) algo natural, foi assim desde o início da evolução humana; (2) algo normal e que a maioria faz; (3) um hábito alimentar necessário, pois precisamos da proteína animal; e acima de tudo, (4) não há nada de anti-ético, ou de mau, em se alimentar daquilo que apetece ao paladar. O problema é que o fato de uma pessoa vegetariana saudável existir coloca em xeque toda essa estratégia inconsciente para justificar o nosso desejo de comer carne.  Dá-se mais ou menos assim em todos os grupos vitimados por uma ou outra forma qualquer de adicção. Os fumantes inveterados, por exemplo, têm dificuldades para admitir que o cigarro pode levar ao câncer de pulmão, ou de garganta, por exemplo.  

De alguma forma eu intuia, mas não posso dizer que sabia, que a cultura como um todo desempenhava esse papel de nos inibir, impedindo-nos de uma reflexão mais profunda e que nos levaria a ter dificuldades para aceitar que é normal conviver com alguns animais no lar e outros no prato, muito embora esta seleção fosse completamente arbitrária. Eu não sabia do poder desta "camuflagem" linguística que nos possibilita desidentificar a carne do sofrimento daquele grupo específico de animais pelos quais passamos a não demonstrar compaixão. Contudo, já percebia que, talvez por comodismo e covardia intelectual, em vez de questionar o hábito de se alimentar de produtos de origem animal, as pessoas preferiam se deixar levar pela cultura onde haviam sido criadas, optando por driblar a sua própria racionalidade e amainando, desta maneira, o seu sentimento de culpa. Se em algumas culturas comer carne de vaca era crime, haviam também aquelas onde se alimentar de carne de cachorro, ou de cavalo, era algo absolutamente natural. Se você não quer abrir mão de satisfazer o seu desejo, hoje compreendo bem melhor, basta aceitar, com base nas quatro crenças fundamentais do paradigma da carne, que os animais escolhidos como alimentos não tem sentimentos e são menos inteligentes que aqueles escolhidos como animais domésticos. 

Somente um vegetariano dos pioneiros sabe lidar com a contingência desagradável de deflagrar um mal estar entre aqueles que estão se servindo de carne e se sentem desconfortáveis porque você não está fazendo o mesmo. Por outro lado, já estava cansado de ouvir a todo momento, vindo do nada, afirmações como "a alface também é um ser vivo, você não acha que ela também sente dor?" Além de tudo, eu sentia ali, naquela presunção do meu colega, a presença da premissa de que a carne era, de alguma forma, um fator de afirmação da própria masculinidade, em especial, o churrasco que ele adorava e considerava comida de macho. Desse modo, mesmo sem a plena consciência de que a minha presença naquele almoço de confraternização colocara o paradoxo da carne no centro das atenções, resolvi reagir de forma mais dura e quase rude, dizendo:
-- Está certo. Vocês querem entender como me sinto? Querem entender como vejo esta nossa discussão? Imaginem a seguinte situação. Você sofre um acidente de avião e cai em uma região habitada por uma tribo de canibais, que presenciam o acidente e imaginam que você é o deus deles, que desceu dos céus. Eles querem te homenagear e lhe oferecem um banquete regado a carne humana. Percebendo que a iguaria não te apetece eles passam a lhe indagar sobre quais as suas "razões" para você não aceitar comer carne humana. Pois bem, a mesma dificuldade que vocês teriam com os canibais é a que sinto agora para explicar a vocês porque não consumo produtos de origem animal. 
Não preciso dizer que, sendo obrigados a verem o que se recusavam a ver, todos se sentiram ofendidos e aquela fala praticamente encerrou aquele almoço que já se arrastava mais que devia. 

Em outra ocasião, numa festa de final de ano, realizada em uma mansão que a Rhodia tinha na República do Líbano, em São Paulo, o gerente geral do grupo Rhodia, o então renomado Edison Vaz Musa, aproximou-se da rodinha onde eu me encontrava. Para os engenheiros iniciantes, isto era uma honra sem igual. Dirigiu-se a mim e disse estar muito satisfeito com os meus resultados, sempre reportados a ele pelos meus superiores. Disse que eu teria uma carreira executiva brilhante e aproveitou para me dizer de alguns cuidados que eu deveria tomar se quisesse, de fato, galgar aqueles passos.  Eu deveria aprender a beber socialmente e também repensar os meus hábitos alimentares. Ser vegetariano era, certamente, um obstáculo, era algo antissocial, que prejudicava, inclusive, os negócios. Os grandes líderes necessitavam ser sociáveis. Deveriam saber receber e também se sentirem confortáveis nos banquetes, festas e outros eventos empresariais. Disse-me que, para ser lembrado nas próximas promoções de carreira, pensasse seriamente naquilo, pois o ambiente corporativo era extremamente competitivo. Em resposta, enquanto segurava, socialmente, o meu copo de guaraná, disse-lhe que não sabia ser competitivo com os meus pares, e que minha motivação era unicamente o meu anseio de superar a mim mesmo. Se o fato de ser vegetariano e de não consumir bebidas alcoólicas representassem obstáculos ao meu progresso profissional, eu renunciava a ele, pois me sentia feliz sendo como era e fazendo exatamente o que já fazia. Musa deu um sorriso amarelo, simplesmente pediu licença e nunca mais o vi. Meus colegas me admoestaram fortemente. Como pudera ser tão desrespeitoso? Como pudera desperdiçar aquela oportunidade ao estar frente a frente com o executivo número um da empresa e considerado um dos mais bem sucedidos de todo o Brasil?  

Logo em seguida, saí de férias para me casar e viajar em Lua de Mel. Quando retornei, soube que o Musa havia dito aos meus superiores diretos e ao próprio diretor da unidade Rhodia de São José dos Campos, que eu representava um perigo para a organização e que, independentemente das minhas avaliações de desempenho altamente positivas, ele queria o meu desligamento da companhia. Era o período da crise do petróleo dos anos oitenta. Meus superiores sabiam das dificuldades que eu enfrentaria e procuraram me defender como puderam. Conseguiram para mim que eu continuasse na empresa até conseguir me recolocar no mercado de trabalho. O próprio RH da Rhodia identificou algumas oportunidades e agendou para mim algumas entrevistas. Assim, não precisaria ser demitido, o que "mancharia" o meu curriculum. E foi assim que tendo sido aprovado em entrevista na CEBRACE pude apresentar o meu pedido de demissão à Rhodia. Pouco mais tarde, receberia uma proposta vantajosa da Monsanto e me transferiria para lá. O resto é história, conforme descrevi em "Sorriso Interior: O início da Jornada de Volta", onde apresento, inclusive, as razões para me demitir da Monsanto e dar inicio à minha odisseia.

Ainda me lembro que ao receber a notícia de que eu tinha um prazo de seis meses para procurar outra empresa, antes de ser demitido, minha decepção fora tão grande que, de início, pensara em abandonar de vez o ambiente corporativo. Pensara em me aventurar em algum negócio próprio. Cheguei até a alugar um ponto comercial para trabalhar com "produtos naturais", nome genérico de então para designar toda esta tendência contemporânea de conscientização do corpo e do meio ambiente, englobada pelo vegetarianismo e pelo Yoga. Contudo, era recém-casado e, considerando o estado de fragilidade financeira em que me encontrava, os riscos se mostraram enormes e desisti do projeto.

Fiz este preâmbulo para fazer entender, principalmente, aos veganos a árdua tarefa de abrir caminhos onde antes não haviam caminhos, que foi a obra e a missão, por excelência, dos pioneiros vegetarianos, como pretendo mostrar na próxima seção. Hoje os tempos são outros e, pavimentar essas vias traçadas pelo vegetarianismo, não restam dúvidas, é uma tarefa igualmente importante e que vem sendo bem executada pelos veganos.


Rio de Janeiro, 18 .06.17.
(Atualizado em 06.04.18)