sábado, 15 de outubro de 2016

O Caminho do Coração: Livro-Blog no ar sob a égide de Śraddhā

Primeira tese de filosofia sobre a  Bhagavad Gītā
Livro publicado a partir da tese de doutorado
e que fundamenta este Livro-Blog sobre a
Arte e a Ciência da Meditação.
Este Livro-Blog é um instrumento de reflexão sobre a Arte e a Ciência da Meditação, desenvolvidas na Bhagavad Gītā1 a partir de śraddhā – a bússola interior; a convicção íntima; o sentimento de conexão com o sagrado; o ardor e o poder do coração que fortalecem a vontade empoderando tudo o mais; e a amorosa luz do coração que ilumina e dá foco à razão. Śraddhā representa o Princípio da Confiança e da Prudência expresso no cogito cartesiano. Representa a razão esclarecida pelo coração tranquilo e pelo sorriso interior que orientam e aferem a conduta do herói em sua jornada. Denota, portanto, o processo racional e dialético de superação da vontade e da fé exterior, esta entendida como um estado de espera pelo encontro com as verdades últimas e o sagrado revelado nas Escrituras.

Há sete virtudes principais segundo os teólogos da Igreja Católica: Prudência, Justiça, Temperança, Coragem, Fé, Esperança e Compaixão. Como nos alerta o Senhor Buda2, a fé sem prudência não conduz à realização final. Do mesmo modo, nos alerta a ciência moderna, a fé sem prudência está em contradição com a razão. A única fé digna deste nome, portanto, é a fé da razão esclarecida, ou seja, aquela fé interior, ou fé-em-si-mesmo, que contém como subprodutos todas as sete virtudes principais definidas pela Igreja. Esta fé-em-si-mesmo, que está em consonância com os requisitos do Senhor Buda, corresponde ao que, na Bhagavad Gītā, se denomina como śraddhā -- aquele poder que empodera tudo mais, possibilitando-nos compreender a vida toda como sagrada. 

Śraddhā opera como o termômetro espiritual da faculdade da vontade. Marca característica daqueles que já experimentam daquilo que antes era mero objeto de fé, śraddhā representa não a espera, mas o estado de encontro, ou descoberta da essência do real, de onde se origina a certeza interior. Enquanto a fé exterior, ou fé sem śraddhā, é característica daqueles devotos (bhaktas) que, embora creiam no sagrado, o ignoram; śraddhā, a fé interior, ou fé em si mesmo, ao constituir-se como fonte de certeza, caracteriza aqueles (bhaktas ou não) cujo saber funda-se tanto na ciência, como no sentimento de universalidade que permeia a essência do sagrado. Não é por outra razão que é incorreto traduzir śraddhā no texto da Gītā conforme o sentido teológico designado pelo termo “fé”, embora esta continue sendo a opção utilizada pelos tradutores desavisados.

O recém publicado artigo "The role of philosophy in the academic study of religion in India", da Dra. Sonia Sikka (Professor of Philosophy, University of Ottawa, Canada), parte de algumas destas ideias, desenvolvidas em minha tese "Śraddhā in the Bhagavad Gītā" (2007) – a primeira sobre a Gītā oficialmente reconhecida como pertencendo ao campo da filosofia  e não simplesmente aos campos da religião, literatura, história, psicologia, sociologia e áreas afins  –,  para avançar na discussão sobre o papel da filosofia no estudo da religião. Seu texto corrobora a tese de que as religiões ocupam-se da fé (latim: “fides”; grego: “pistis” – crença) exterior nas Escrituras, enquanto a Bhagavad Gītā ocupa-se daquele ardor do coração e sentimento racional de “fé interior” que está na origem, tanto da ciência como das religiões, e que se designa em sânscrito como śraddhā – o sentimento racional de certeza interior e de conexão com o sagrado. 

Então, hoje, 15 de outubro, em celebração a esta vitória e reconhecimento oriundo da Filosofia, coloco no ar este Livro Blog  "A Arte e a Ciência da Meditação segundo a Bhagavad Gītā"Foi  em um 15 de outubro que D. Pedro I baixou o Decreto Imperial que criou o Ensino Elementar no Brasil (1827). Cento e vinte anos mais tarde, em 1947, aconteceria o primeiro encontro de docentes. Nascia então  a ideia de se reservar o dia 15 de outubro para o estabelecimento de encontros anuais de professores, estudantes e pais, com o intuito de se discutir os rumos da educação no Brasil. E assim, em 14 de outubro de 1963, o Decreto Federal 52.682 oficializa o dia 15 de outubro como feriado escolar com a seguinte justificativa: "Para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias".  Pretendo com este Livro-Blog, em suma, refletir sobre a Arte e a Ciência da Meditação, a viga mestra da nascente Universidade do Coração, da qual somos colaboradores.

(1) Para conhecer a pronúncia das palavras sânscritas veja o nosso resumo do Guia de Transliteração e Pronúncia das palavras sânscritas.
(2) "Não acredite em nada;
não importa onde você tenha lido,
ou quem tenha dito, nem mesmo se eu tiver dito,
a não ser que esteja de acordo com o que lhe revela
a sua própria razão quando iluminada pelo coração".
Esta é uma tradução livre de uma passagem do Kalama Sutta, onde se discutem as limitações da razão que não se deixa iluminar pelo coração.

Próximo texto: O Livro-Blog

Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2016.
(Atualizado em 02.07.18)